quinta-feira, 18 de setembro de 2008
Férias...
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
Plagiando Chinanski.
Quando sua mulher te diz pra mudar de trabalho
Quando seus textos não são lidos ou são rejeitados
Ou quando o quilo do presunto na padaria está muito caro
E não possuis mais nenhum cascalho e grita
“Ah, mas que caralho!”,
Pare e beba um gole de cerveja.
Quando seus amigos estão se casando e
Contentes estão procriando
Quando sua mãe diz que de uns trocados está precisando
Ou quando lê um poema seu e acha que as palavras
Não estão rimando,
Pare e beba um gole de cerveja.
Quando tudo se parece mais ou menos igual
Ou quando na rua pinta uma idéia bem banal
Ou até quando um cachorro te assusta gritando um certo
“Au-au!”,
Pare e beba um gole de cerveja.
Batendo em portas fechadas
Andando por estradas todas elas tortas
E cantando ou declamando para um bando de moscas mortas,
Pare e beba uma cerveja.
Não tem metrô para onde vais
Insiste em idéias que lhe serão caras demais
E se da guerra se cansou e anseias por um pouco de paz
(esta ficou forçada demais),
Pare e beba um gole de cerveja.
Em resumo: sua conta bancária zerou
Na cama, você brochou
E de repente a sua inspiração para o poema acabou...
Amigo, só uma coisa te sobrou:
Tenho que repetir
Ou já adivinhou?
quinta-feira, 7 de agosto de 2008
Nós, o pistoleiro, não devemos ter piedade.
Nós, o pistoleiro, não devemos ter piedade
(Moacyr Scliar)
Nós somos um terrível pistoleiro. Estamos num bar de uma pequena cidade do Texas. O ano é 1880. Tomamos uísque a pequenos goles. Nós temos um olhar soturno. Em nosso passado há muitas mortes. Temos remorsos. Por isto bebemos.
A porta se abre. Entra um mexicano chamado Alonso. Dirige-se a nós com despeito. Chama-nos de gringo, ri alto, faz tilintar a espora. Nós fingimos ignorá-lo. Continuamos bebendo nosso uísque a pequenos goles. O mexicano aproxima-se de nós. Insulta-nos. Esbofeteia-nos. Nosso coração se confrange. Não queríamos matar mais ninguém. Mas teremos de abrir uma exceção para Alonso, cão mexicano.
Combinamos o duelo para o dia seguinte, ao nascer do sol. Alonso dá-nos mais uma pequena bofetada e vai-se. Ficamos pensativo, bebendo o uísque a pequenos goles. Finalmente atiramos uma moeda de ouro sobre o balcão e saímos. Caminhamos lentamente em direção ao nosso hotel. A população nos olha. Sabe que somos um terrível pistoleiro. Pobre mexicano, pobre Alonso.
Entramos no hotel, subimos ao quarto, deitamo-nos vestido, de botas. Ficamos olhando o teto, fumando. Suspiramos. Temos remorsos.
Já é manhã. Levantamo-nos. Colocamos o cinturão. Fazemos a inspeção de rotina em nossos revólveres. Descemos.
A rua está deserta, mas por trás das cortinas corridas adivinhamos os olhos da população fitos em nós. O vento sopra, levantando pequenos redemoinhos de poeira. Ah, este vento! Este vento! Quantas vezes nos viu caminhar lentamente, de costas para o sol nascente?
No fim da Rua Alonso nos espera. Quer mesmo morrer, este mexicano.
Colocamo-nos frente a ele. Vê um pistoleiro de olhar soturno, o mexicano. Seu riso se apaga. Vê muitas mortes em nossos olhos. É o que ele vê.
Nós vemos um mexicano. Pobre diabo. Comia o pão de milho, já não comerá. A viúva e os cinco filhos o enterrarão ao pé da colina. Fecharão a palhoça e seguirão para Vera Cruz. A filha mais velha se tornará prostituta. O filho menor ladrão.
Temos os olhos turvos. Pobre Alonso. Não se devia nos ter dado suas bofetadas. Agora está aterrorizado. Seus dentes estragados chocalharam. Que coisa triste.
Uma lágrima cai sobre o chão poeirento. É nossa. Levamos a mão ao coldre. Mas não sacamos. É o mexicano que saca. Vemos a arma na sua mão, ouvimos o disparo, a bala voa para o nosso peito, aninha-se em nosso coração. Sentimos muita dor e tombamos.
Morremos, diante do riso de Alonso, o mexicano.
Nós, o pistoleiro, não devíamos ter piedade.
terça-feira, 5 de agosto de 2008
Sobre Meninos e Pipas.
Estava eu de bobeira, dando sopa para os pobres e assoviando enquanto chupava cana, isso tudo na casa do meu irmão, enquanto a comida requentava num fogão de lenha... Na verdade era um microondas, e era começo de século, mas não custa nada sonhar, não é mesmo? E papo vai, papo vêm, minha mãe veio nos visitar aqui na capital, cozinhou bolo de fubá, passou café, conversas de família rolaram, e minha recusa em relatar os pormenores se deve a certo respeito protestante que possuo para com os leitores. Eis que fico a divagar sobre meu tempo de infância, eu e meus dois irmãos correndo pela rua, jogando bola enquanto corríamos da fuligem de cana de açúcar sendo queimada no céu de uma cidade qualquer do interior paulista. Bola de gude, paquera na praça, é fato: vivi tudo isso. E mais um pouco, é verdade.
Daí que a televisão estava ligada, e bem ao longe consegui escutar um comentarista qualquer dando a notícia de que um garoto, aqui da capital, que morreu na tarde de hoje atropelado por um caminhão em alguma via expressa de São Paulo, acho que foi na Imigrantes, não me lembro agora. Daí que o garoto estava correndo atrás de uma pipa no céu. Confesso que fiquei profundamente comovido. Não por conta da pipa: nunca gostei de empinar pipa, sempre me pareceu uma diversão meio besta na verdade, ficar olhando um pedaço de papel com varetas sendo puxado por uma linha ir prá lá e prá cá na imensidão do azul. Ficava com os olhos doendo, porque o céu da minha terra sim era mais azul, mas de um azul forte, que cega de tanto ficar com as retinas viradas pro alto. Além do que, vira e mexe algum amigo tinha a mão cortada por conta da tal folha que voa, por causa do cerol. Ah, também tinha o torcicolo, claro.
Mas é triste ver um garoto morrer por conta da brincadeira em si. Claro que a culpa não foi dele, e provavelmente não foi do motorista da jamanta que poderia muito bem estar carregando folhas de papel de seda, ou carretéis de linha de alguma indústria, etc. “A culpa é do Fidel” também não vale, é só um filme. Vez ou outra, quando caminho olhando o nada e o tudo, de bobeira mesmo pelas ruas, percebo que a tez da molecada daqui é um pouco mais branca, e diria até mais pálida do que a da garotada em outros lugares onde morei. Deve ser essa coisa de desde pequeno serem criados em apartamento. Enfim... Deixo este estudo de bandeja pros pedagogos.
Pra terminar: O Ruy Castro, escritor que muito admiro, vez ou outra anda escrevendo na sua coluna sobre a mortes de jovens com relação à violência urbana, etc. e tal. Acho que foi por causa dele que escrevi esta crônica. Ou foi porque nunca gostei de pipa?
terça-feira, 22 de julho de 2008
Probabilidades.
Probabilidades.
Ok, ok... Tempos sem escrever crônicas, amigos putos e preocupados, mulheres tristes pelos cantos da cidade (os homens nunca ficam muito tristes), decido voltar à ativa... Queria ser mesmo é o Rubem Braga, viver disto, ter nascido numa cidade como Cachoeira do Itapemirim, sei lá que diabos mais... Enfim... Mas não: Não me ponho como um velho (apesar do velho e bom Rubem já o fazer com apenas quarenta e poucos anos), não sei tratar as moças com o devido trato (prefiro o “ao vivo”, sabe cumé?), e me formo sociólogo no fim do ano... “Triste destino para o pobre Pieckles”, diria Paul Auster. É, caro leitor: La vida és dura...
Mas chega de chororê, e chega de saudades, pois o meu conto sobre Bossa Nova não foi publicado pelo Estadão, minha conta bancária cai mais que a tal da Bovespa, e a felicidade está como o pretenso projeto Brasil: Longe, longe do horizonte... Mais eis que nem tudo são nuvens, e uma história me aparece! Sim, apesar de não viver disso, ainda tenho a pretensão de conquistar algum coração lá em algum rincão do sertão brasileiro...
Amigo de longos choros e chops (mais o segundo que o primeiro), Tonhão me conta esta, numa noite enevoada por saias e nuvens, extrato de amido engarrafado e tabaco que, por enquanto nessas bandas, ainda não é discriminado. Vai pra casa com uma mulher, a despe, ela não diz nada a mais de uma hora (diz ele que se encantou por conta da sua mudez), e pimba! Gol do Brasil – “Temperamento latino é fogo”, diria o outro – e nosso herói vai... E vai... E pinta um troço ali que é o seguinte: A mulher é chegadaça numa... Forçada de barra... Num... Sabe como é caro leitor? Ta, ta bem: a mulher era chegada em músculos... Sendo usados... A força... O código penal chama de estupro... Enfim, fico aqui me policiando para escrever isso, mas Nelson Rodrigues o fez com palavras quiçá mais sucintas, e eu não poderia tropeçando nelas? Oras... É isso, e é tudo: A mulher gostava de ser estuprada! E meu amigo entrou na onda...
Disse-me ele que, isso lá pelas uma e pouco, ela decide ir embora, tem que trabalhar no outro dia, o diabo a quatro... Ele, meio torpe e nem um pouco afins, diz pra ela dormir ali mesmo, etc. e tal... Ela, nada comovida com o convite entusiasmado do rapaz, nega: Trabalha sério, quer juntar dinheiro pra abrir negócio próprio, etc. e tal... Ele balbucia, mas não tem jeito não: A cabocla estava convencida, e nessas horas, quando uma mulher sabe o que quer, retórica besta é pouca coisa... E lá vai ele, levá-la pro ponto de ônibus, três quarteirões da casa dele.
Chega lá, umas duas garotas no ponto, serviço completo... A garota chia, o ônibus vai demorar uma meia hora, está ansiosa pra chegar ao seio do lar... Ele a convida pra ir à sua casa, que é do lado, etc... Ela diz um não, que tem que ir pra casa... Ele então diz que vai embora, que não vai ficar lá, que está cansado... Ela faz uma cara de brava, como aquelas mulheres que mostram estar cansadas de homens que as comem e que después nem lhes dão valor, aquela coisa toda... Ele olha bem pra ela, lhe dá um beijo no rosto e diz tchau... Ela diz:
- E se eu for estuprada aqui, a esta hora? Vê se pode um troço desses!
- Meu bem, ninguém conseguiria estuprar três mulheres de uma tacada só, pode ficar tranqüila...
- Ah, é?
- É... Além disso, meu bem, estatisticamente é impossível alguém ser estuprada duas vezes na mesma noite, pode ficar sossegada...
E foi, assoviando, para o seu edredom, quente e acolhedor.
Franco Chiariello, Escutando coisas...
domingo, 20 de julho de 2008
O Pugilista.
O pugilista.
Sentado como sempre, com as hemorróidas loucas para aflorar a qualquer momento (pois qualquer hora isso vai acontecer, é quase inevitável), pinta um amigão meu, o Noca. Conversamos uma hora mais ou menos, pois ele agora tem tempo sobrando na vida.Vou relatar um pouco a sua história, só pra ficar registrada nos anais dos homens bons da Terra.
Recifense de nascença e vivendo em São Paulo com a família já faz dez anos. Esses recifenses são quase sempre muito inteligentes, sagazes por demasia, não é mesmo? Pois bem. Noca sempre trabalhou na indústria fonográfica, assistente de gravação, de produção, sempre sendo assistente de algo. Eis que um dia “desiste de assistir”, segundo ele. Manda o emprego pra puta que pariu, e da noite para o dia começa a fazer tudo o que gosta, mas não tinha tempo de fazer nos áureos tempos de proletário.
Conseguiu guardar uma grana, que não dará para mais que dois meses, pois teve que fazer limpeza de canal, sei lá que diabos mais. Mas o negócio é que ele passou a ter a seguinte rotina diária, que me relatou como se eu fosse seu diário íntimo:
Acorda cedo, umas oito da manhã. Faz alongamento, um pouco de ginástica, barra, o serviço completo. Toma seu complexo vitamínico (sem anfetaminas, uma relíquia nos dias atuais). Vai correr no horto florestal, que fica ao lado da sua casa. Fica flanando um pouco por lá, observando as mamães com seus filhos brincando no parque de diversões, enquanto papai está trabalhando. Volta para casa lá pelas dez, toma uma ducha fria (que é para os músculos ficarem mais rijos, como ele me explicou), come na mesa seu café da manhã com sua mãe, e lê até o meio dia. Literatura, de preferência.
Já são quase uma da tarde, e nosso herói se senta para ler o jornal, ver como está o mundo. “Uma desgraça”, é a conclusão que chega todos os dias. Lê a coluna do Zé Simão, ri um pouco e se joga no sofá para uma sessão de Western. James Dean, Marlon Brando, Sérgio Leone. O que vier, ele traça. Ah, e musicais dos anos cinqüenta e sessenta é sempre bem-vindo também. Gene Kelly, essas coisas fantásticas que o cinema não faz mais, uma pena. Vez ou outra aparece alguma mulher gostosa para provar roupa na sua casa, pois sua mãe trabalha com figurinos de peças teatrais. Ah, quase deixo passar batido isso: ele sempre deita ou se senta no sofá com um shorts do Corinthians, aqueles da década de oitenta, bem curtinho, e sem cueca. E regata, branca de preferência. Peito estufado quando alguma garota chega, pêlos do peito expostos, acende um cigarro e dá uma olhadela de canto quando cumprimenta as moças na chegada, dizendo “oi, moça”.
Ele tem quase um e noventa, cara de árabe puro sangue, cabelos cumpridos, uma figura pelo menos exótica. Bela, eu diria. Fez um furo na parede do corredor que dá para o estúdio da sua mãe, de modo que quando alguma donzela vai provar alguma peça de roupa, ele aumenta o volume da televisão, corre para o seu buraco da sorte, enfia a cara lá e realiza-se. “Um deleite”, como ele diz. Escreve um pouco à tarde, e lá pelas quatro vai treinar boxe. Começou agora também. Dei de presente para ele dia desses o Touro Indomável, do Scorsese. Quase chorou de emoção. Está gostando muito, e usa uma gaze no pulso esquerdo, denotando que seu ofício é duro, árduo mesmo. Outro dia veio em casa, tirou a gaze e foi fazer barras lá na sala dos fundos. “Doze barras”, me disse ele, todo orgulhoso. Com o punho firme e forte como um touro, o próprio De Niro. Em carne e osso.
Vai à noite pra faculdade, e ultimamente eu e ele ficamos escrevendo crônicas mil sobra qualquer coisa que possa radicalizar alguma inspiração que tenha batido do nada, na hora. “É o que sempre digo, bichão: inspiração + exercício; esse é o segredo”. E sai coisas engraçadíssimas, juro. Pelo menos nós dois aprovamos. Não se trata de troca de figurinhas, de bater bafo nas aulas não. “São pérolas”, me diz ele. Rimos, e depois das aulas vamos beber um pouco na esquina da faculdade, porque não somos bestas, nem de ferro. Mas vamos num bar onde quem tem menos de vinte anos não cola. Melhor assim.
E a vida segue o rumo, os barcos foram feitos para navegar, as pias para nos lavarmos, Hollywood para fazer cinema-pipoca, os políticos brasileiros para nos foder, e por aí afora. Penso comigo, enquanto repito a sentença do poeta:
“Êta vida besta, sô!”
Franco Chiariello, direto dos ringues paulistanos.
domingo, 29 de junho de 2008
Escrever, depois colar.
Escrever, depois colar.
Eis que, lendo uma antologia de contos do grande Moacyr Scliar, caio de cabeça num conto chamado Os contistas. Pois bem. O conto trata do lançamento de um livro de contos de um amigo seu de ofício, e o Autor (no caso, o Moacyr Scliar) diz para todos que está escrevendo um conto sobre contistas. Relata as angústias de sua carreira, a dificuldade de publicar, a obscuridade que começou a aparecer durante o tempo, as frases concisas e os excessos que, inevitavelmente, atormentam a cabeça do autor, etc. Um puta texto, pensei. De repente me veio uma coisa, uma idéia genial: por que não sair distribuindo meus contos por aí, sem critério nenhum...por exemplo, colar alguns contos meus nas cabines de banheiros por aí, quem sabe para incentivar o hábito da leitura enquanto as pessoas cagam, ao invés de ficarem olhando para os azulejos, ou a procura de baratas em algum banheiro sujo? Aliás, um dos contistas narrado por Scliar só consegue escrever em banheiros, enquanto caga, tendo espalhados pelos banheiros afora fragmentos e mais fragmentos de contos. Além do mais, já havia escrito um conto narrando uma história que se passa dentro de uma dessas cabines. E lá fui eu.
Fita crepe e páginas e mais páginas na mão, saí colando em tudo quanto é banheiro, na minha faculdade e em bares, restaurantes, Shoppings e afins. Nenhum critério na cabeça, só este: colar o máximo de contos possíveis, seja lá onde for. Era quase uma pichação, só que em contos. E privadamente. É, no literal. Rapaz, será que isso já havia sido feito antes? Nunca tinha visto nada igual. A moçada que pira naquilo que chamam de “performance” iria gostar? E os que sofressem de hemorróidas? Os velhos, os trotskistas, que achariam? E os punheteiros, será que iriam ler? Só havia uma regra, que impus para mim mesmo: não deixaria meu nome. Possivelmente um ou outro amigo saberia daquilo, seria inevitável, pois alguns já tinham lido algumas coisas minhas. Não quis nem saber: fui logo tratando de colar palavras impressas em papéis brancos pelas cabines afora, com fita durex de boa qualidade. Não era marketing, era prazer. E só.
Semanas depois, revisitei um ou outro lugar. Alguns telefones para me chupar, outros perguntando quem eu era, um ou outro dizia “que merda”, e por aí foi. Um dizia que trabalhava numa editora, e deixou um telefone para contato. Outro escreveu que tinha um conto parecidíssimo com o que ele havia lido. Disse não estar mais só no mundo. Um ou outro havia sido arrancado, mas a maioria permaneceu lá, do jeito que colei. Não mudarei o mundo, mas, como disse certa vez Pedro Juan Gutierrez, fiz alguma coisa de mim mesmo, ainda que mínima, porque estava precisando justamente de alguma coisa que me fizesse pular.
quinta-feira, 19 de junho de 2008
Desatino da Verbenácea.
Desatino da Verbenácea
O homem?
O homem é sapo.
No papo grosso em seu lago.
É processo tosco, de uma metamorfose louca
que é surpresa.
O sapo-homem não sabe
é pato tapado de seu ser
é esperança morta daquilo que crê.
Mas pato parado é comida;
o coaxar do sapo morto,
é arroto após o almoço,
no prato do homem em família.
O pato de costas é pluma;
como espuma sob linha da banhada menina
um Monte Fuji.
A menina quando vista
alinha a espinha à espera
do que não lhe é surpresa.
Surdo, o Monte Fuji grita...
E é o mesmo o olhar ao Fuji
de quem parado assisti e
não desisti.
A fim de uma paz servida,
habita em cima do Monte
com um monte de parasitas;
mas aplica no sono
o sonho da moradia.
O homem?
O homem é gado.
É manso rebanho
que pasta e parta
depois berra pro bezerro
o erro
à trazer pro seu filho o medo.
O gado-homem tem patas
quadras que galopam entre terras
fazem guerras
não dividem pedras.
E no fim, na morte
adubam chão, como quem faz pazes.
É ganso sem descanso
garganta grande
pra agüentar o entalo
perna remo para logo fugir
do tenro.
O homem?
não é cão, é osso
latido de moço
que encontra na saliva, vida
na carência canina,
medo da morte viva.
Dando os trâmites por findos
o homem ainda compraz por um felino
crivo gato penacho
que em pulos
chega ao asco do mia-mia
do dia-dia.
O homem?
O homem é sapo
É frouxo processo em larva que se lava
num brejo louco
que é surpresa a todos os outros.
Renato Rodrigues (Tato)
sexta-feira, 13 de junho de 2008
Não sei não...
Enquanto trabalho aqui em casa, fechado no meu bunker, tentando fazer algum dinheiro e esperando a morte chegar, assisto na televisão uma das maiores notícias que tive contato nos últimos dias.
Em uma cadeia n'algum lugar de algum rincão da Bahia, um detento foi solto por engano. A juíza da cidade expediu um alvará de soltura para um certo Adaílton não sei das quantas, outro detento da mesma cadeia. Por engano, soltaram um outro detento, com o mesmo nome, mas de sobrenome diverso. Eis que, chegando em casa, o sortudo detento (na medida do possível) percebeu o erro da justiça, ligou para a polícia e explicou o ocorrido. A polícia o prendeu novamente e o levou para a cadeia local. A reportagem pegou cenas da cadeia, do outro Adaílton, entrevistou o delegado, que apareceu rindo. Os dois Adaíltons também estavam rindo, e o ingênuo (ou idônio, depende do ponto de vista) disse que acreditava que estava agindo certo, etc. e tal. Um detento da tal cadeia, entrevistado pela reportagem logal, perguntado se faria o mesmo que o referido colega, disse, balançando a cabeça:
- Ah, num sei não...
Brasil é isso, meu povo!
Ri Happy!
Ri Happy!
Acho que não me cai bem crônicas datadas historicamente, coisa e tal, pois me parece que elas são inevitavelmente presas num nexo de tempo que foge à regra da atemporalidade e da tal universalidade (se tivesse mais alguma palavra bacana com o final “dade”, pode ter certeza que eu acrescentaria). Quem pretende ser gênio não pode se dar ao luxo de escrever tal coisa. Mas eis que, novamente enfurnado nos livros do filho da puta do Rubem Fonseca (em outro lugar já disse que este canalha me come a alma), li uma crônica dele quando da queda do muro de Berlin. Ele estava lá quando o muro ruiu (pasmem!), e descreveu coisas sobre o grande acontecimento, com a genialidade que o consagrou como escritor. Tanto faz.
O importante (para quem, afinal?) é que, justo nesse dia dos namorados, eu não tinha a menor idéia do que dar de presente para a dita cuja que tem o azar de dividir coisas e dívidas de pôquer comigo. Eram seis e meia da tarde e corri para a Rua Teodoro Sampaio atrás de alguma coisa bacana para comprar para uma mulher que já recebeu como presente calcinha do Fausto Falsete, jogo de dardos da Estrela e livros do Pedro Juan Gutiérrez que, não sei bem o porquê, ela jurou que eu tinha dado pra ela para eu ler depois. Intimidade é uma merda.
Sei que entrei em lojas estranhas, balconistas uniformizadas tentaram me vender de tudo (de chapinha de cabelo a lingerie pornô – legal, por sinal), com direito a comissões que variam de 1 a 6 por cento para elas. Normal que seja assim. Sei que, depois de tanto bater perna, isso lá pelas sete e tantas, e com as retinas já viradas de tanta bugiganga saltando às vistas, entrei numa loja de brinquedos, a Ri Happy!. Entrei e a primeira coisa que vi foi uma prateleira que devia ter uns 6 metros de altura cheia, lotada, estrebuchando de bichinhos de pelúcia. Caia no chão, de tanta fartura (mesmo depois do escândalo na China, com recheios com produtos tóxicos, etc.). Estava cansado, querendo tomar um porre de vinho, fumar um habano, apostar em máquinas de videopôquer, jogar pingue-pongue, fazer qualquer coisa mais radical do que aquela empresa a que estava me dedicando. Nem pisquei e a vendedora me mostrou um boneco do X-man; um banco imobiliário; dinossauros de borracha e uma réplica do Indiana Jones enorme . Mas quando ela me mostrou um sapo que cantava Only You, meus olhos se encheram de lágrimas: era aquilo que estava procurando! Ela apertou a mão do bicho e ele cantava a música inteirinha! Cara, um novo mundo se abriu para mim: percebi que estava envelhecendo; que qualquer réplica de algum animal feito a base de poliéster me emocionava; que minha barriga crescera nos últimos meses; que voltei a ouvir rock e assistir Chaves; e que, de um jeito ou de outro, era um pateta com 25 anos de idade gastando uma pequena fortuna com a coisa mais nonsense que havia visto nos últimos tempos.
Paguei pelo sapo, mas ela gostou. Rimos, tomamos vinho, fizemos amor e pensamos na vida depois disso tudo, fumando um Churchill, naturalmente. Bacana essa coisa toda do sapinho que canta, até o Rubem Fonseca, no auge dos seus setenta e lá vai paulada iria gostar... Haha, a vida é bela!
quinta-feira, 5 de junho de 2008
Das quatro maiores cidades.
São Paulo é cinza.
Nova Iorque é cinza.
A Cidade do México
é perfeitamente plana.
Tóquio, é multicolorida.
Os chineses.
Os
chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses
Estão para o mundo, assim como os
Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva
Estão para a lista telefônica.
quarta-feira, 28 de maio de 2008
Deus existe, e mora num rancho.
(Texto que, pela segunda vez na minha curta vida, escrevi com meu irmão Caio. Trata-se de um tema "político", e resolvi postar aqui (juro por deus!), porque uma amiga minha certa vez alegou que eu só escrevia literatura niilista (não sei bem qual o conceito que ela possui sobre este termo) no meu blog. Lá vai... Abraço, Caião (Se você se tornar requisitado, quero os royalites do tramite todo, ok?).
Deus existe, e mora num rancho.
A questão relativa ao teísmo permeia a trajetória de toda pessoa acidentalmente concebida na porção planetária denominada ocidente (por enquanto chamemos os que estão do outro lado de Greenwich de “os sem dentes”), onde desde infantes somos levados a um lugar estranho, referenciado: um templo. Os acometidos ao teísmo são apresentados ainda bem jovens aos ritos sacerdotais e, logicamente, a todo o aparato punitivo que se segue (ainda que, pelo menos desde o apóstolo Woody Allen, com direito a olhadas e eventuais beliscões nas nádegas de algumas joviais colegas do sexo oposto). Comigo não foi diferente. Apresentado aos discretos rituais baptistas (que são, por natureza, diferentes do eleitorado de Antonhy Garotinho no Rio- como a cidade maravilhosa foi se transformar num reduto evangélico da noite pro dia?), sempre fui alertado de que ‘nasci pecador e careço da misericórdia divina, pois J.C. subiu piamente ao calvário e sofreu por mim, um perdido pecador’, isso sendo eu um garoto com propensões ao mal que assolava os garotos da minha idade (o “empeludamento” das mãos). Já era chamado de perdido (não me viram depois), e o começo disso tudo começou com as dores nas costas que meu pai tinha. O pastor da igreja onde freqüentávamos teve a caridade de emprestar um vibrador para sanar as dores da ovelha do seu rebanho, não bastasse a sua preocupação com as dores da alma. O resto está impresso em cartazes propagandísticos pelos sex shops da vida.
O interessante é que, ao longo do tempo, outro elemento me era apresentado: o amor. Foi justamente a nula percepção de um amor incondicional para com o divino que me permitiu jubilar qualquer dívida que existisse, me liberando de penitências em fórum privado, tais como uma hora diária de banho, etc., embora confesse que há um residual sentimento de culpa que ronda a mim e, penso que, a todos (afinal somos ocidentais, e a energia sempre custou os olhos da cara, além da influência de Santo Agostinho ser absurda no legado ocidental). Meu primeiro amor se chamava Rosinalva, e seu cabelo vinha até a bunda.
Acontece que, divagando dia desses enquanto descascava milho no quintal de casa, e observando alguns episódios especiais do início do século XXI (e, principalmente, galvanizando esses momentos num tecido com alguma lógica ou uma matriz de unicidade cosmogânica – é assim que se escreve tal conceito?), concluí algo bastante interessante: Deus Existe!
Explico: em verdade, a conclusão a que chego é a de que o Diabo existe e, como um par antitético (ou duas faces da mesma moeda de cinco centavos de Real), se o diabo existe, logo Deus há. Portanto, a premissa de que parto é a de que existe sim o Diabo, em razão da observação pontual dos episódios que se seguem. Ei-los:
(Episódio Um, ou “Lebowski jogando boliche”): quando do atentado às torres do WTC em 11/09/01, a grande maioria dos dizimados consistia em trabalhadores terceiromundistas, alocados tanto nos staffs da gerência das empresas quanto em atividades ‘menores’, como ascensoristas, faxineiros, moleques de leva-traz, fazedores de aviões de papel, enfim: uma infinidade de chicanos trabalhando na Big Apple e em busca do sonho americano. E mais: o acontecimento elevou o então desprestigiado G.W. Bush (it) à alcunha de paladino da vendeta estadunidense. Obra de quem? Do Diabo, claro. Mas prosseguindo:
(Episódio Dois, ou “Queremos sertanejo!”): o furacão Katrina, que percorreu os EUA em 2005, ziguezagueou pelo Sul chauvinista, passou pela região petrolífera e carrasco do país e foi assolar justo quem? Os moradores de New Orleans, berço do Jazz e do Blues, capital da cultura negra do país e, logicamente, uma região menos abastada da nação (além de fazer o X Burger mais barato do país, dizem as revistas especializadas), levando a uma catástrofe de proporções dantescas. Recapitulando: o Katrina ‘driblou’ as regiões mais conservadoras e racistas dos EUA, onde se usa o milho como reco-reco, e foi aterrorizar justamente o enclave afro do país. Economizou os arianos e detonou a “negrada”. Obra de quem? Já sabemos.
(Episódio Três, ou “O homem que sabia javanês”): O Tsunami atingiu as paradisíacas praias da Indonésia, com muçulmanos torrando em suas túnicas em um sol de quarenta graus centígrados, arrebatando mais de 100 mil pessoas com sua fúria, o que não se verificou nas praias da Califórnia, Vale do Silício, Japão ou demais litorais melhor preparados para esse acidente (não afetando, infelizmente, a praia de Malibu e adjacências). Lambeu o litoral de uma das regiões mais belas e mais pobres do globo. Obra de quem? Do cão, como diria Virgulino, “O capitão”.
(Episódio Quatro, ou “Adeus, Al Gore”): essa é demais... O aquecimento global, que aparentemente levará todo o globo igualmente a sofrer com a elevação da temperatura (fazendo com que, pela primeira vez na história, pingüins deixem de receber dos governos da Islândia e da Dinamarca o seu quinhão na seguridade social dos respectivos países), também tem o dedo do tinhoso: o aquecimento levará as regiões temperadas do norte (leia-se EUA e Europa) a temperaturas mais elevadas, contribuindo assim com sua maior capacidade de produção de gêneros tropicais em sua cadeia agrícola, principalmente de alimentos, levando à redução de sua dependência de exportação de gêneros de primeira necessidade e, aliado à tecnologia de ponta, proporcionando diversidade em sua produção agroindustrial, além de continuarem produzindo vinhos melhores que os argentinos. Em contrapartida, as regiões subtropicais do sul (leia-se África e Sul América – Argentina inclusa -) deverão constatar elevação da temperatura a níveis insuportáveis e degeneração de suas floretas tropicais, evoluindo para um quadro de desertificação e de calor insuportáveis em longo prazo, como alegou o subsecretário de obras da cidade do Rio de Janeiro em fevereiro passado: “Não haverá verbas disponíveis para a ampliação do Pscinão de Ramos”. Obra de quem? Pode um troço desses?!
(Episódio Cinco, ou “Foi Santos Dumont quem inventou o avião!”): esse é o demus brasillis: em outubro de 2006, um avião da empresa GOL com mais de 150 brasileiros colidiu no ar com um jatinho Legacy, com 06 estadunidenses nos céus do Mato Grosso. O que aconteceu? O jatinho do Tio Sam teve uma pequena avaria, que o permitiu continuar viagem enquanto o avião com os 150 brazucas CAIU DE BICO no meio da selva, não deixando um sobrevivente, além de desmatar ainda mais a nossa já tão dizimada flora (gerando um problema a mais para a então ministra do Meio Ambiente Marina Silva). Detalhe: a falha para que houvesse a colisão foi do jatinho Legacy. E então? É legal isso? Alguma dúvida de quem operou este milagre?
Ao interligar esses episódios (repetindo: enquanto descascava meus milhos tranquilamente), fica nítida a interferência do Demo para que essas catástrofes viessem a aterrorizar os representantes que vivem abaixo da cidade de Paris, Texas (Deus salve Win Wenders!). Ou simplificando: mesmo em eventos aparentemente aleatórios, quem está por baixo se dá mal, como mestre Gonzaguinha brilhantemente aduz: “pobre não tem mesmo vez, não dá sorte ou dá azar”. E nisso tem, é claro, é lógico, é inegável, salve-salve, o dedo do Diabo. Portanto, ele existe e, se ‘ele’ existe, “Ele” também há: Deus existe. Ou não?
Podemos confabular o seguinte, revisando os episódios: 1 ) No ‘atentado’ ao WTC, é muito pouco provável que os proprietários das empresas, os detentores das ações e também os presidentes e principals, estivessem no prédio, afinal de contas, quem estava lá estava a trabalho, ou matando trabalho. Eram o contingente executor, formado por brilhantes engenheiros indianos, hábeis faxineiros mexicanos e alguns titulados latino-americanos, além dos habituais chineses vendendo yakissobas nas calçadas adjacentes. Logo, foram esses os vitimados: La vida és muy dura! 2 ) Com todo o aparato meteorológico-bélico-pentagonal-oxágonal-instrumental, não seria tão desconhecido o traçado do furacão Katrina (pois afinal, como sabiam o seu nome, hein? Hahã, peguei vocês!), assim como os procedimentos contingenciais do governo minimizariam a catástrofe humana, mas isso não aconteceu. Ficou claro o descaso do Estado, e do presidente texano para com os afro-descendentes abatidos pelo Katrina (talvez porque Bill Clinton toque saxofone, e Wynton Marsalis seja o diretor do Lincoln Center em NY), baixas talvez sem muita importância para as bandas cover do Willie Nelson. 3 ) A possibilidade de ocorrência de ondas do tipo Tsunami é monitorada por países como Japão e Austrália, mas somente nas imediações de seu território, protegendo origamis (que possuem uma natural capacidade de alçar vôo) e ovelhas. Assim, não se pôde prever a catástrofe que abateu sobre a população da Indonésia, com seus surfistas de trens. Mas vale uma ressalva: as populações litorâneas, inebriadas pelo turismo e pelo canto da sereia dos Dólares e Euros, deixou de lado seus costumes seculares, pois não codificaram a linguagem dos animais que, minutos antes da chegada das ondas gigantes, rasparam el gatón (para usar uma expressão local, introduzida por um colonizador espanhol já no séc. XVI). Ainda, as fotos demoraram a chegar à internet, devido ao fato de que as máquinas fotográficas dos turistas estarem com os cartuchos cheios de fotos de surf e nativos sorrindo, tendo que ser deletadas primeiramente. 4 ) O aquecimento global pode ser contido para evitar o aumento da discrepância entre norte e sul mas, com um indicador como o da prosperidade agrícola do norte, os EUA, maior emissor de gases que destroem a camada de ozônio, continuam a desrespeitar o Protocolo da ilusória cidade de Kyoto (pois não existe tal lugar nas agências de turismo). Mas eles podem: afinal, império é império, ou alguém pergunta às formigas se podemos pisoteá-las, a não ser biólogos com bolsa de estudos da FAPESP especializados em tal inseto?
Dessa forma, desdigo o que propus acima e, em nova conclusão, concluo por assim ser que o diabo não existe, e se ‘ele’ não existe, ‘Ele’ não há!
Ah! Ia me esquecendo... O episódio do jatinho Legacy e do avião da Gol: Não teve a pachorra nem de cair numa plantação de soja transgênica... Em se tratando do Brasil, isso sim é obra do Demo! E fui cuidar do meu milho... Também vivo num rancho, ora pois!
Caio e Franco Chiariello.
segunda-feira, 26 de maio de 2008
Sem título (que eu saiba)...
"Leia o texto abaixo e depois leia de baixo para cima"
Não te amo mais.
Estarei mentindo dizendo que
Ainda te quero como sempre quis.
Tenho certeza que
Nada foi em vão.
Sinto dentro de mim que
Você não significa nada.
Não poderia dizer jamais que
Alimento um grande amor.
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci!
E jamais usarei a frase
EU TE AMO!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade
É tarde demais...
(Clarice Lispector)
domingo, 25 de maio de 2008
Poema do Domingos de Oliveira.
Mais que minhas rimas ou primas,
Ou outras que vieram depois.
Pois porque eu sou porque sois,
Além da lua, além dos sóis que vimos juntos,
Ou quaisquer outros assuntos, agora eu sei.
Eu vos amo mais do que temo a morte.
Eu reconheço a fonte dos nossos problemas:
É que antes, e cedo,
Eu fiquei com medo de te escrever
Poemas.
Domingos de Oliveira.
domingo, 18 de maio de 2008
Poema para um poeta pálido.
Amigo poeta:
Dia destes, lendo seus garranchos
Enevoados de vinho e noite,
Reparei um troço, por sinal
Mui elegante:
Adoras o sol!
É, adoras sim, e por sinal
(e no entanto, não faz mal)
És branco, quiçá mais até
Do que o próprio sal!
Gostas do sol, mas é branco
Como a lua que te faz tão mal!
Como pode?
Qual será o mistério?
Serão as tais jurisprudências da vida
Que te faz ficarem horas e mais horas
(certo estás que por muito tempo não pretendes)
Nos corredores do Fórum João Mendes?
Ou aquele encanto distante que temos
(e pretendemos)
Manter justamente com aquilo
Que nos faz comer as nossas almas e mentes?
Se te afastas por muito tempo,
A inspiração necessária se esvai pelos dedos
Que automaticamente se tornam dormentes
De tanto desatino que dá a distância por si
Só.
Se te aproximas, corre o risco de ter o tédio
A te comer pelas bordas, pelo meio
E por tudo o mais que, desde os gregos,
Temos o bom hábito de chamar de
Vida.
Que fazes, afinal, pálido amigo:
Decifra-te ou te devoras?
quarta-feira, 14 de maio de 2008
Scarlet.
Scarlet.
fico feliz quando elas chegam
e feliz quando se vão
feliz quando escuto os saltos
se aproximando de minha porta
feliz quando esses saltos
se afastam
feliz por foder
feliz por me importar
feliz quando tudo termina
e
desde que as coisas ou estão
começando ou terminando
fico feliz
a maior parte do tempo
e os gatos caminham pra cima e pra baixo
e a terra gira em torno do sol
e o telefone toca:
"é a Scarlet".
"quem?"
"Scarlet."
"certo, pinta aí."
e desligo pensando
talvez seja isso
entro
dou uma cagada rápida
me barbeio
me banho
me visto
ponho o lixo
e as caixas cheias de garrafas vazias
pra fora
me sento ao som dos
saltos se aproximando
parecendo mais a aproximação de um exército
do que o som da vitória
É Scarlet
e na minha cozinha a torneira
continua pingando
precisando de concerto.
cuidarei disso mais
tarde.
segunda-feira, 28 de abril de 2008
Lixo.
Dedos no teclado
Para escrever um poema da alma,
Dos dias cinzas e das nuvens
Claras que andam me aparecendo.
Toca a campainha.
Eu, concentrado e irritado,
Fumando como um desvairado,
Abro: é um lixeiro.
Não um lixeiro qualquer, mas
O responsável por apanhar com os dedos todos
Os restos e sobras que passaram pela minha vida.
Quiçá, até mais que a própria poesia.
- Caixinha de natal!
Sorri, ele sorriu, e
Saquei dois reais do meu bolso,
Mais duas aristocráticas cigarrilhas de regalo
Para ele.
Tem mais: disse-lhe que fumasse
Apreciando cada tragada, ainda que correndo,
Pedindo caixinhas e pegando os lixos alheios.
Agradeceu-me sorrindo, com seus dentes
Tortos.
Dei-me conta de que a poesia
Está tanto na alma quanto no lixo.
quinta-feira, 10 de abril de 2008
Lou Reed na Calixto.
Lou Reed na Calixto.
Do meu lado trabalha um camarada chamado Gil, Gildário. Vende cd`s piratas, gravados, genéricos, depende de quem está falando. Enfim, vende cd`s também, em MP3. Muita coisa fina, desde Jacob do bandolim até jazz, coisas assim. Mas têm um ou outro Linkin Park, essas coisas também. Pouco, mas tem. Fala o dia todo, pelos cotovelos. Quando toma umas e outras então, puta que pariu. Ninguém agüenta. Mas é gente fina, um cara legal. Anda um pouco tristonho, terminou um casamento de uns sete, oito anos. Quando alguém pede algo como “Rebelde”, “Amado Batista”, diz sempre que não trabalha com droga pesada, que seu negócio é no máximo um baseadinho. Geralmente nêgo não entende, sai andando. Fuma maconha o dia inteiro, no duro. Não sei como consegue se manter em pé. Qualquer dia a sua cabeça vai explodir, virar fumaça, de tanto fumo acumulado.
Dia desses me aparece na banca dele o Otto, cantor, ex-percussionista do grande e salve-salve Mundo Livre S/A. Não gosto muito dele não, acho suas letras fracas e um pouco porra-louca demais para meus ouvidos. Uma espécie de quase Lou Reed brasileiro, só que casado com a delícia da Alessandra Negrini, o que denota uma característica de que a mulher o salvou dos arcabouços do inferno, ou algo assim. Muito “style” para mim. Pois bem. Aparece na banca do Gil e começa a olhar os cd`s, fuça na caixa, olhando, olhando. De repente, encontra um cd com seus discos, todos os seus poucos e fracos álbuns, compactados em MP3. Olha perplexo, se vira para Gil e diz:
- Rapaz, você está vendendo meus discos aqui, bicho. Não pode não, pô! Ce tá pirateando meu trabalho, cara. Não pode não, pô!
No que Gil vira pro camarada e diz:
- Porra, meu irmão! Qual é? As pessoas vão conhecer sua música e ir aos seus shows, e isso não é bom não? É bom para você sim, cara! Pensa nisso. Bom para mim e bom para você também, bicho!
Mas a figura parecia resolvida a aporrinhar a vida do meu colega de ofício:
- Mas fui eu quem compôs as músicas, quem gravei todas elas. Você não pode ganhar dinheiro em cima do meu trabalho não, bicho! Não é justo, cara!
Gil olhou para mim, já devia estar um pouco com o ovo virado daquele papo todo, e disse para o Lou Reed brasileiro:
- Quer saber de uma coisa? Pode levar essa merda embora pra sua casa. Ninguém compra mesmo, entendeu? Ninguém gosta da sua música, nem eu e nem ninguém, tá entendendo? Olha só, ainda mais do lado da discografia completa do Miles Davis, olha isso! Um horror, uma verdadeira afronta! Vai, leva essa merda e não volta mais aqui não, amigo! Nem eu e nem ninguém gosta desse lixo que você faz!
O cara ficou atônito, enquanto Gil pegava o cd e tentava entregar para nosso amigo. Ele virou e disse um “não é assim não, rapaz”, e Gil retrucou decidido que não tinha outro jeito, que era melhor para o ouvido das pessoas e para o bolso de ambos. O cara se virou e foi embora, sem saber o que fazer. Rimos o dia inteiro, feito loucos, enquanto nosso astro pop devia estar concedendo alguma entrevista para alguma revista cult da vida, dizendo sobre o processo de criação de suas canções, de como seu casamento era perfeito, etc. Um verdadeiro Ottar.. Assoviando “Tchu, tchurup, tchup-tchup-tchup-tchurup-tchup, tchurup, tchup-tchup-tchup-tchurup-tchuuuuuuup”.