quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Férias...

Estarei de férias em termos de blog, o cacete à quatro.. Justo. Um abraço a todos, volto em setembro com mais ânimo do que uma freira às 11 da noite...

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Plagiando Chinanski.

Plagiando Chinanski.

Quando sua mulher te diz pra mudar de trabalho
Quando seus textos não são lidos ou são rejeitados
Ou quando o quilo do presunto na padaria está muito caro
E não possuis mais nenhum cascalho e grita
“Ah, mas que caralho!”,
Pare e beba um gole de cerveja.
Quando seus amigos estão se casando e
Contentes estão procriando
Quando sua mãe diz que de uns trocados está precisando
Ou quando lê um poema seu e acha que as palavras
Não estão rimando,
Pare e beba um gole de cerveja.
Quando tudo se parece mais ou menos igual
Ou quando na rua pinta uma idéia bem banal
Ou até quando um cachorro te assusta gritando um certo
“Au-au!”,
Pare e beba um gole de cerveja.
Batendo em portas fechadas
Andando por estradas todas elas tortas
E cantando ou declamando para um bando de moscas mortas,
Pare e beba uma cerveja.
Não tem metrô para onde vais
Insiste em idéias que lhe serão caras demais
E se da guerra se cansou e anseias por um pouco de paz
(esta ficou forçada demais),
Pare e beba um gole de cerveja.
Em resumo: sua conta bancária zerou
Na cama, você brochou
E de repente a sua inspiração para o poema acabou...
Amigo, só uma coisa te sobrou:
Tenho que repetir
Ou já adivinhou?

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Nós, o pistoleiro, não devemos ter piedade.

(Conto do Sclyar, mestre do gênero, pra vocês que gostam do Sérgio Leone...)

Nós, o pistoleiro, não devemos ter piedade
(Moacyr Scliar)
Nós somos um terrível pistoleiro. Estamos num bar de uma pequena cidade do Texas. O ano é 1880. Tomamos uísque a pequenos goles. Nós temos um olhar soturno. Em nosso passado há muitas mortes. Temos remorsos. Por isto bebemos.
A porta se abre. Entra um mexicano chamado Alonso. Dirige-se a nós com despeito. Chama-nos de gringo, ri alto, faz tilintar a espora. Nós fingimos ignorá-lo. Continuamos bebendo nosso uísque a pequenos goles. O mexicano aproxima-se de nós. Insulta-nos. Esbofeteia-nos. Nosso coração se confrange. Não queríamos matar mais ninguém. Mas teremos de abrir uma exceção para Alonso, cão mexicano.
Combinamos o duelo para o dia seguinte, ao nascer do sol. Alonso dá-nos mais uma pequena bofetada e vai-se. Ficamos pensativo, bebendo o uísque a pequenos goles. Finalmente atiramos uma moeda de ouro sobre o balcão e saímos. Caminhamos lentamente em direção ao nosso hotel. A população nos olha. Sabe que somos um terrível pistoleiro. Pobre mexicano, pobre Alonso.
Entramos no hotel, subimos ao quarto, deitamo-nos vestido, de botas. Ficamos olhando o teto, fumando. Suspiramos. Temos remorsos.
Já é manhã. Levantamo-nos. Colocamos o cinturão. Fazemos a inspeção de rotina em nossos revólveres. Descemos.
A rua está deserta, mas por trás das cortinas corridas adivinhamos os olhos da população fitos em nós. O vento sopra, levantando pequenos redemoinhos de poeira. Ah, este vento! Este vento! Quantas vezes nos viu caminhar lentamente, de costas para o sol nascente?
No fim da Rua Alonso nos espera. Quer mesmo morrer, este mexicano.
Colocamo-nos frente a ele. Vê um pistoleiro de olhar soturno, o mexicano. Seu riso se apaga. Vê muitas mortes em nossos olhos. É o que ele vê.
Nós vemos um mexicano. Pobre diabo. Comia o pão de milho, já não comerá. A viúva e os cinco filhos o enterrarão ao pé da colina. Fecharão a palhoça e seguirão para Vera Cruz. A filha mais velha se tornará prostituta. O filho menor ladrão.
Temos os olhos turvos. Pobre Alonso. Não se devia nos ter dado suas bofetadas. Agora está aterrorizado. Seus dentes estragados chocalharam. Que coisa triste.
Uma lágrima cai sobre o chão poeirento. É nossa. Levamos a mão ao coldre. Mas não sacamos. É o mexicano que saca. Vemos a arma na sua mão, ouvimos o disparo, a bala voa para o nosso peito, aninha-se em nosso coração. Sentimos muita dor e tombamos.
Morremos, diante do riso de Alonso, o mexicano.
Nós, o pistoleiro, não devíamos ter piedade.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Sobre Meninos e Pipas.

Sobre meninos e pipas.

Estava eu de bobeira, dando sopa para os pobres e assoviando enquanto chupava cana, isso tudo na casa do meu irmão, enquanto a comida requentava num fogão de lenha... Na verdade era um microondas, e era começo de século, mas não custa nada sonhar, não é mesmo? E papo vai, papo vêm, minha mãe veio nos visitar aqui na capital, cozinhou bolo de fubá, passou café, conversas de família rolaram, e minha recusa em relatar os pormenores se deve a certo respeito protestante que possuo para com os leitores. Eis que fico a divagar sobre meu tempo de infância, eu e meus dois irmãos correndo pela rua, jogando bola enquanto corríamos da fuligem de cana de açúcar sendo queimada no céu de uma cidade qualquer do interior paulista. Bola de gude, paquera na praça, é fato: vivi tudo isso. E mais um pouco, é verdade.
Daí que a televisão estava ligada, e bem ao longe consegui escutar um comentarista qualquer dando a notícia de que um garoto, aqui da capital, que morreu na tarde de hoje atropelado por um caminhão em alguma via expressa de São Paulo, acho que foi na Imigrantes, não me lembro agora. Daí que o garoto estava correndo atrás de uma pipa no céu. Confesso que fiquei profundamente comovido. Não por conta da pipa: nunca gostei de empinar pipa, sempre me pareceu uma diversão meio besta na verdade, ficar olhando um pedaço de papel com varetas sendo puxado por uma linha ir prá lá e prá cá na imensidão do azul. Ficava com os olhos doendo, porque o céu da minha terra sim era mais azul, mas de um azul forte, que cega de tanto ficar com as retinas viradas pro alto. Além do que, vira e mexe algum amigo tinha a mão cortada por conta da tal folha que voa, por causa do cerol. Ah, também tinha o torcicolo, claro.
Mas é triste ver um garoto morrer por conta da brincadeira em si. Claro que a culpa não foi dele, e provavelmente não foi do motorista da jamanta que poderia muito bem estar carregando folhas de papel de seda, ou carretéis de linha de alguma indústria, etc. “A culpa é do Fidel” também não vale, é só um filme. Vez ou outra, quando caminho olhando o nada e o tudo, de bobeira mesmo pelas ruas, percebo que a tez da molecada daqui é um pouco mais branca, e diria até mais pálida do que a da garotada em outros lugares onde morei. Deve ser essa coisa de desde pequeno serem criados em apartamento. Enfim... Deixo este estudo de bandeja pros pedagogos.
Pra terminar: O Ruy Castro, escritor que muito admiro, vez ou outra anda escrevendo na sua coluna sobre a mortes de jovens com relação à violência urbana, etc. e tal. Acho que foi por causa dele que escrevi esta crônica. Ou foi porque nunca gostei de pipa?

terça-feira, 22 de julho de 2008

Probabilidades.

(História contada assim, ao pé da letra, pelo amigo de engradados Indrigo...pra você, figura louca...)


Probabilidades.

Ok, ok... Tempos sem escrever crônicas, amigos putos e preocupados, mulheres tristes pelos cantos da cidade (os homens nunca ficam muito tristes), decido voltar à ativa... Queria ser mesmo é o Rubem Braga, viver disto, ter nascido numa cidade como Cachoeira do Itapemirim, sei lá que diabos mais... Enfim... Mas não: Não me ponho como um velho (apesar do velho e bom Rubem já o fazer com apenas quarenta e poucos anos), não sei tratar as moças com o devido trato (prefiro o “ao vivo”, sabe cumé?), e me formo sociólogo no fim do ano... “Triste destino para o pobre Pieckles”, diria Paul Auster. É, caro leitor: La vida és dura...
Mas chega de chororê, e chega de saudades, pois o meu conto sobre Bossa Nova não foi publicado pelo Estadão, minha conta bancária cai mais que a tal da Bovespa, e a felicidade está como o pretenso projeto Brasil: Longe, longe do horizonte... Mais eis que nem tudo são nuvens, e uma história me aparece! Sim, apesar de não viver disso, ainda tenho a pretensão de conquistar algum coração lá em algum rincão do sertão brasileiro...
Amigo de longos choros e chops (mais o segundo que o primeiro), Tonhão me conta esta, numa noite enevoada por saias e nuvens, extrato de amido engarrafado e tabaco que, por enquanto nessas bandas, ainda não é discriminado. Vai pra casa com uma mulher, a despe, ela não diz nada a mais de uma hora (diz ele que se encantou por conta da sua mudez), e pimba! Gol do Brasil – “Temperamento latino é fogo”, diria o outro – e nosso herói vai... E vai... E pinta um troço ali que é o seguinte: A mulher é chegadaça numa... Forçada de barra... Num... Sabe como é caro leitor? Ta, ta bem: a mulher era chegada em músculos... Sendo usados... A força... O código penal chama de estupro... Enfim, fico aqui me policiando para escrever isso, mas Nelson Rodrigues o fez com palavras quiçá mais sucintas, e eu não poderia tropeçando nelas? Oras... É isso, e é tudo: A mulher gostava de ser estuprada! E meu amigo entrou na onda...
Disse-me ele que, isso lá pelas uma e pouco, ela decide ir embora, tem que trabalhar no outro dia, o diabo a quatro... Ele, meio torpe e nem um pouco afins, diz pra ela dormir ali mesmo, etc. e tal... Ela, nada comovida com o convite entusiasmado do rapaz, nega: Trabalha sério, quer juntar dinheiro pra abrir negócio próprio, etc. e tal... Ele balbucia, mas não tem jeito não: A cabocla estava convencida, e nessas horas, quando uma mulher sabe o que quer, retórica besta é pouca coisa... E lá vai ele, levá-la pro ponto de ônibus, três quarteirões da casa dele.
Chega lá, umas duas garotas no ponto, serviço completo... A garota chia, o ônibus vai demorar uma meia hora, está ansiosa pra chegar ao seio do lar... Ele a convida pra ir à sua casa, que é do lado, etc... Ela diz um não, que tem que ir pra casa... Ele então diz que vai embora, que não vai ficar lá, que está cansado... Ela faz uma cara de brava, como aquelas mulheres que mostram estar cansadas de homens que as comem e que después nem lhes dão valor, aquela coisa toda... Ele olha bem pra ela, lhe dá um beijo no rosto e diz tchau... Ela diz:
- E se eu for estuprada aqui, a esta hora? Vê se pode um troço desses!
- Meu bem, ninguém conseguiria estuprar três mulheres de uma tacada só, pode ficar tranqüila...
- Ah, é?
- É... Além disso, meu bem, estatisticamente é impossível alguém ser estuprada duas vezes na mesma noite, pode ficar sossegada...
E foi, assoviando, para o seu edredom, quente e acolhedor.















Franco Chiariello, Escutando coisas...

domingo, 20 de julho de 2008

O Pugilista.

(Mais uma das minhas bestiais crônicas... aliás, há uma revista bacana rolando na internet, é a www.revistabenedito.wordpress.com (coincidência, não?), e sou um dos condenados a preencher páginas vazias por esta coisa que um amigo meu insiste em chamar de fluxo gratuito de informação... abraços atodos...)

O pugilista.




Sentado como sempre, com as hemorróidas loucas para aflorar a qualquer momento (pois qualquer hora isso vai acontecer, é quase inevitável), pinta um amigão meu, o Noca. Conversamos uma hora mais ou menos, pois ele agora tem tempo sobrando na vida.Vou relatar um pouco a sua história, só pra ficar registrada nos anais dos homens bons da Terra.
Recifense de nascença e vivendo em São Paulo com a família já faz dez anos. Esses recifenses são quase sempre muito inteligentes, sagazes por demasia, não é mesmo? Pois bem. Noca sempre trabalhou na indústria fonográfica, assistente de gravação, de produção, sempre sendo assistente de algo. Eis que um dia “desiste de assistir”, segundo ele. Manda o emprego pra puta que pariu, e da noite para o dia começa a fazer tudo o que gosta, mas não tinha tempo de fazer nos áureos tempos de proletário.
Conseguiu guardar uma grana, que não dará para mais que dois meses, pois teve que fazer limpeza de canal, sei lá que diabos mais. Mas o negócio é que ele passou a ter a seguinte rotina diária, que me relatou como se eu fosse seu diário íntimo:
Acorda cedo, umas oito da manhã. Faz alongamento, um pouco de ginástica, barra, o serviço completo. Toma seu complexo vitamínico (sem anfetaminas, uma relíquia nos dias atuais). Vai correr no horto florestal, que fica ao lado da sua casa. Fica flanando um pouco por lá, observando as mamães com seus filhos brincando no parque de diversões, enquanto papai está trabalhando. Volta para casa lá pelas dez, toma uma ducha fria (que é para os músculos ficarem mais rijos, como ele me explicou), come na mesa seu café da manhã com sua mãe, e lê até o meio dia. Literatura, de preferência.
Já são quase uma da tarde, e nosso herói se senta para ler o jornal, ver como está o mundo. “Uma desgraça”, é a conclusão que chega todos os dias. Lê a coluna do Zé Simão, ri um pouco e se joga no sofá para uma sessão de Western. James Dean, Marlon Brando, Sérgio Leone. O que vier, ele traça. Ah, e musicais dos anos cinqüenta e sessenta é sempre bem-vindo também. Gene Kelly, essas coisas fantásticas que o cinema não faz mais, uma pena. Vez ou outra aparece alguma mulher gostosa para provar roupa na sua casa, pois sua mãe trabalha com figurinos de peças teatrais. Ah, quase deixo passar batido isso: ele sempre deita ou se senta no sofá com um shorts do Corinthians, aqueles da década de oitenta, bem curtinho, e sem cueca. E regata, branca de preferência. Peito estufado quando alguma garota chega, pêlos do peito expostos, acende um cigarro e dá uma olhadela de canto quando cumprimenta as moças na chegada, dizendo “oi, moça”.
Ele tem quase um e noventa, cara de árabe puro sangue, cabelos cumpridos, uma figura pelo menos exótica. Bela, eu diria. Fez um furo na parede do corredor que dá para o estúdio da sua mãe, de modo que quando alguma donzela vai provar alguma peça de roupa, ele aumenta o volume da televisão, corre para o seu buraco da sorte, enfia a cara lá e realiza-se. “Um deleite”, como ele diz. Escreve um pouco à tarde, e lá pelas quatro vai treinar boxe. Começou agora também. Dei de presente para ele dia desses o Touro Indomável, do Scorsese. Quase chorou de emoção. Está gostando muito, e usa uma gaze no pulso esquerdo, denotando que seu ofício é duro, árduo mesmo. Outro dia veio em casa, tirou a gaze e foi fazer barras lá na sala dos fundos. “Doze barras”, me disse ele, todo orgulhoso. Com o punho firme e forte como um touro, o próprio De Niro. Em carne e osso.
Vai à noite pra faculdade, e ultimamente eu e ele ficamos escrevendo crônicas mil sobra qualquer coisa que possa radicalizar alguma inspiração que tenha batido do nada, na hora. “É o que sempre digo, bichão: inspiração + exercício; esse é o segredo”. E sai coisas engraçadíssimas, juro. Pelo menos nós dois aprovamos. Não se trata de troca de figurinhas, de bater bafo nas aulas não. “São pérolas”, me diz ele. Rimos, e depois das aulas vamos beber um pouco na esquina da faculdade, porque não somos bestas, nem de ferro. Mas vamos num bar onde quem tem menos de vinte anos não cola. Melhor assim.
E a vida segue o rumo, os barcos foram feitos para navegar, as pias para nos lavarmos, Hollywood para fazer cinema-pipoca, os políticos brasileiros para nos foder, e por aí afora. Penso comigo, enquanto repito a sentença do poeta:

“Êta vida besta, sô!”





























Franco Chiariello, direto dos ringues paulistanos.

domingo, 29 de junho de 2008

Escrever, depois colar.

(Coisa besta e sem sentido, mas vá lá...)

Escrever, depois colar.


Eis que, lendo uma antologia de contos do grande Moacyr Scliar, caio de cabeça num conto chamado Os contistas. Pois bem. O conto trata do lançamento de um livro de contos de um amigo seu de ofício, e o Autor (no caso, o Moacyr Scliar) diz para todos que está escrevendo um conto sobre contistas. Relata as angústias de sua carreira, a dificuldade de publicar, a obscuridade que começou a aparecer durante o tempo, as frases concisas e os excessos que, inevitavelmente, atormentam a cabeça do autor, etc. Um puta texto, pensei. De repente me veio uma coisa, uma idéia genial: por que não sair distribuindo meus contos por aí, sem critério nenhum...por exemplo, colar alguns contos meus nas cabines de banheiros por aí, quem sabe para incentivar o hábito da leitura enquanto as pessoas cagam, ao invés de ficarem olhando para os azulejos, ou a procura de baratas em algum banheiro sujo? Aliás, um dos contistas narrado por Scliar só consegue escrever em banheiros, enquanto caga, tendo espalhados pelos banheiros afora fragmentos e mais fragmentos de contos. Além do mais, já havia escrito um conto narrando uma história que se passa dentro de uma dessas cabines. E lá fui eu.
Fita crepe e páginas e mais páginas na mão, saí colando em tudo quanto é banheiro, na minha faculdade e em bares, restaurantes, Shoppings e afins. Nenhum critério na cabeça, só este: colar o máximo de contos possíveis, seja lá onde for. Era quase uma pichação, só que em contos. E privadamente. É, no literal. Rapaz, será que isso já havia sido feito antes? Nunca tinha visto nada igual. A moçada que pira naquilo que chamam de “performance” iria gostar? E os que sofressem de hemorróidas? Os velhos, os trotskistas, que achariam? E os punheteiros, será que iriam ler? Só havia uma regra, que impus para mim mesmo: não deixaria meu nome. Possivelmente um ou outro amigo saberia daquilo, seria inevitável, pois alguns já tinham lido algumas coisas minhas. Não quis nem saber: fui logo tratando de colar palavras impressas em papéis brancos pelas cabines afora, com fita durex de boa qualidade. Não era marketing, era prazer. E só.
Semanas depois, revisitei um ou outro lugar. Alguns telefones para me chupar, outros perguntando quem eu era, um ou outro dizia “que merda”, e por aí foi. Um dizia que trabalhava numa editora, e deixou um telefone para contato. Outro escreveu que tinha um conto parecidíssimo com o que ele havia lido. Disse não estar mais só no mundo. Um ou outro havia sido arrancado, mas a maioria permaneceu lá, do jeito que colei. Não mudarei o mundo, mas, como disse certa vez Pedro Juan Gutierrez, fiz alguma coisa de mim mesmo, ainda que mínima, porque estava precisando justamente de alguma coisa que me fizesse pular.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Desatino da Verbenácea.

(Poema do meu amigo Tato que tenho o prazer de postar aqui.)

Desatino da Verbenácea



O homem?
O homem é sapo.
No papo grosso em seu lago.
É processo tosco, de uma metamorfose louca
que é surpresa.


O sapo-homem não sabe
é pato tapado de seu ser
é esperança morta daquilo que crê.

Mas pato parado é comida;
o coaxar do sapo morto,
é arroto após o almoço,
no prato do homem em família.

O pato de costas é pluma;
como espuma sob linha da banhada menina
um Monte Fuji.

A menina quando vista
alinha a espinha à espera
do que não lhe é surpresa.

Surdo, o Monte Fuji grita...
E é o mesmo o olhar ao Fuji
de quem parado assisti e
não desisti.


A fim de uma paz servida,
habita em cima do Monte
com um monte de parasitas;
mas aplica no sono
o sonho da moradia.

O homem?
O homem é gado.
É manso rebanho
que pasta e parta
depois berra pro bezerro
o erro
à trazer pro seu filho o medo.

O gado-homem tem patas
quadras que galopam entre terras
fazem guerras
não dividem pedras.
E no fim, na morte
adubam chão, como quem faz pazes.

É ganso sem descanso
garganta grande
pra agüentar o entalo
perna remo para logo fugir
do tenro.

O homem?
não é cão, é osso
latido de moço
que encontra na saliva, vida
na carência canina,
medo da morte viva.

Dando os trâmites por findos
o homem ainda compraz por um felino
crivo gato penacho
que em pulos
chega ao asco do mia-mia
do dia-dia.


O homem?
O homem é sapo

É frouxo processo em larva que se lava
num brejo louco
que é surpresa a todos os outros.





Renato Rodrigues (Tato)

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Não sei não...

(Bom, aproveitando a deixa da inspiração fortuita, escrevo as poucas linhas abaixo, referente a uma notícia espantosa...)

Enquanto trabalho aqui em casa, fechado no meu bunker, tentando fazer algum dinheiro e esperando a morte chegar, assisto na televisão uma das maiores notícias que tive contato nos últimos dias.
Em uma cadeia n'algum lugar de algum rincão da Bahia, um detento foi solto por engano. A juíza da cidade expediu um alvará de soltura para um certo Adaílton não sei das quantas, outro detento da mesma cadeia. Por engano, soltaram um outro detento, com o mesmo nome, mas de sobrenome diverso. Eis que, chegando em casa, o sortudo detento (na medida do possível) percebeu o erro da justiça, ligou para a polícia e explicou o ocorrido. A polícia o prendeu novamente e o levou para a cadeia local. A reportagem pegou cenas da cadeia, do outro Adaílton, entrevistou o delegado, que apareceu rindo. Os dois Adaíltons também estavam rindo, e o ingênuo (ou idônio, depende do ponto de vista) disse que acreditava que estava agindo certo, etc. e tal. Um detento da tal cadeia, entrevistado pela reportagem logal, perguntado se faria o mesmo que o referido colega, disse, balançando a cabeça:
- Ah, num sei não...
Brasil é isso, meu povo!

Ri Happy!

(Frisando: esta crônica só tem razão de ser por conta do tédio e da insônia; não quero ser julgado pela história, como Eichman, por conta dela, ok? Abraços risonhos...)

Ri Happy!

Acho que não me cai bem crônicas datadas historicamente, coisa e tal, pois me parece que elas são inevitavelmente presas num nexo de tempo que foge à regra da atemporalidade e da tal universalidade (se tivesse mais alguma palavra bacana com o final “dade”, pode ter certeza que eu acrescentaria). Quem pretende ser gênio não pode se dar ao luxo de escrever tal coisa. Mas eis que, novamente enfurnado nos livros do filho da puta do Rubem Fonseca (em outro lugar já disse que este canalha me come a alma), li uma crônica dele quando da queda do muro de Berlin. Ele estava lá quando o muro ruiu (pasmem!), e descreveu coisas sobre o grande acontecimento, com a genialidade que o consagrou como escritor. Tanto faz.
O importante (para quem, afinal?) é que, justo nesse dia dos namorados, eu não tinha a menor idéia do que dar de presente para a dita cuja que tem o azar de dividir coisas e dívidas de pôquer comigo. Eram seis e meia da tarde e corri para a Rua Teodoro Sampaio atrás de alguma coisa bacana para comprar para uma mulher que já recebeu como presente calcinha do Fausto Falsete, jogo de dardos da Estrela e livros do Pedro Juan Gutiérrez que, não sei bem o porquê, ela jurou que eu tinha dado pra ela para eu ler depois. Intimidade é uma merda.
Sei que entrei em lojas estranhas, balconistas uniformizadas tentaram me vender de tudo (de chapinha de cabelo a lingerie pornô – legal, por sinal), com direito a comissões que variam de 1 a 6 por cento para elas. Normal que seja assim. Sei que, depois de tanto bater perna, isso lá pelas sete e tantas, e com as retinas já viradas de tanta bugiganga saltando às vistas, entrei numa loja de brinquedos, a Ri Happy!. Entrei e a primeira coisa que vi foi uma prateleira que devia ter uns 6 metros de altura cheia, lotada, estrebuchando de bichinhos de pelúcia. Caia no chão, de tanta fartura (mesmo depois do escândalo na China, com recheios com produtos tóxicos, etc.). Estava cansado, querendo tomar um porre de vinho, fumar um habano, apostar em máquinas de videopôquer, jogar pingue-pongue, fazer qualquer coisa mais radical do que aquela empresa a que estava me dedicando. Nem pisquei e a vendedora me mostrou um boneco do X-man; um banco imobiliário; dinossauros de borracha e uma réplica do Indiana Jones enorme . Mas quando ela me mostrou um sapo que cantava Only You, meus olhos se encheram de lágrimas: era aquilo que estava procurando! Ela apertou a mão do bicho e ele cantava a música inteirinha! Cara, um novo mundo se abriu para mim: percebi que estava envelhecendo; que qualquer réplica de algum animal feito a base de poliéster me emocionava; que minha barriga crescera nos últimos meses; que voltei a ouvir rock e assistir Chaves; e que, de um jeito ou de outro, era um pateta com 25 anos de idade gastando uma pequena fortuna com a coisa mais nonsense que havia visto nos últimos tempos.
Paguei pelo sapo, mas ela gostou. Rimos, tomamos vinho, fizemos amor e pensamos na vida depois disso tudo, fumando um Churchill, naturalmente. Bacana essa coisa toda do sapinho que canta, até o Rubem Fonseca, no auge dos seus setenta e lá vai paulada iria gostar... Haha, a vida é bela!

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Das quatro maiores cidades.

(Nem um poema, nem um pensamento... conversando tempos atrás com um amigo sobre as grandes cidades, e tendo como inspiração o ultramaterialismo ou o pragmatismo mais exacerbado possivelmente falando, me saiu isto que está abaixo... abraço a todos.)
Das quatro maiores cidades.


São Paulo é cinza.
Nova Iorque é cinza.
A Cidade do México
é perfeitamente plana.
Tóquio, é multicolorida.

Os chineses.

(Paródia que li certa vez num dos geniais quadros da Mafalda, do Quino, e que, dia desses, sem absolutamente nada pra fazer, resolvi "poematizar" a questão...)
Os chineses.

Os
chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses chineses
Estão para o mundo, assim como os
Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva Silva
Estão para a lista telefônica.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Deus existe, e mora num rancho.

(Texto que, pela segunda vez na minha curta vida, escrevi com meu irmão Caio. Trata-se de um tema "político", e resolvi postar aqui (juro por deus!), porque uma amiga minha certa vez alegou que eu só escrevia literatura niilista (não sei bem qual o conceito que ela possui sobre este termo) no meu blog. Lá vai... Abraço, Caião (Se você se tornar requisitado, quero os royalites do tramite todo, ok?).

Deus existe, e mora num rancho.

A questão relativa ao teísmo permeia a trajetória de toda pessoa acidentalmente concebida na porção planetária denominada ocidente (por enquanto chamemos os que estão do outro lado de Greenwich de “os sem dentes”), onde desde infantes somos levados a um lugar estranho, referenciado: um templo. Os acometidos ao teísmo são apresentados ainda bem jovens aos ritos sacerdotais e, logicamente, a todo o aparato punitivo que se segue (ainda que, pelo menos desde o apóstolo Woody Allen, com direito a olhadas e eventuais beliscões nas nádegas de algumas joviais colegas do sexo oposto). Comigo não foi diferente. Apresentado aos discretos rituais baptistas (que são, por natureza, diferentes do eleitorado de Antonhy Garotinho no Rio- como a cidade maravilhosa foi se transformar num reduto evangélico da noite pro dia?), sempre fui alertado de que ‘nasci pecador e careço da misericórdia divina, pois J.C. subiu piamente ao calvário e sofreu por mim, um perdido pecador’, isso sendo eu um garoto com propensões ao mal que assolava os garotos da minha idade (o “empeludamento” das mãos). Já era chamado de perdido (não me viram depois), e o começo disso tudo começou com as dores nas costas que meu pai tinha. O pastor da igreja onde freqüentávamos teve a caridade de emprestar um vibrador para sanar as dores da ovelha do seu rebanho, não bastasse a sua preocupação com as dores da alma. O resto está impresso em cartazes propagandísticos pelos sex shops da vida.
O interessante é que, ao longo do tempo, outro elemento me era apresentado: o amor. Foi justamente a nula percepção de um amor incondicional para com o divino que me permitiu jubilar qualquer dívida que existisse, me liberando de penitências em fórum privado, tais como uma hora diária de banho, etc., embora confesse que há um residual sentimento de culpa que ronda a mim e, penso que, a todos (afinal somos ocidentais, e a energia sempre custou os olhos da cara, além da influência de Santo Agostinho ser absurda no legado ocidental). Meu primeiro amor se chamava Rosinalva, e seu cabelo vinha até a bunda.
Acontece que, divagando dia desses enquanto descascava milho no quintal de casa, e observando alguns episódios especiais do início do século XXI (e, principalmente, galvanizando esses momentos num tecido com alguma lógica ou uma matriz de unicidade cosmogânica – é assim que se escreve tal conceito?), concluí algo bastante interessante: Deus Existe!
Explico: em verdade, a conclusão a que chego é a de que o Diabo existe e, como um par antitético (ou duas faces da mesma moeda de cinco centavos de Real), se o diabo existe, logo Deus há. Portanto, a premissa de que parto é a de que existe sim o Diabo, em razão da observação pontual dos episódios que se seguem. Ei-los:

(Episódio Um, ou “Lebowski jogando boliche”): quando do atentado às torres do WTC em 11/09/01, a grande maioria dos dizimados consistia em trabalhadores terceiromundistas, alocados tanto nos staffs da gerência das empresas quanto em atividades ‘menores’, como ascensoristas, faxineiros, moleques de leva-traz, fazedores de aviões de papel, enfim: uma infinidade de chicanos trabalhando na Big Apple e em busca do sonho americano. E mais: o acontecimento elevou o então desprestigiado G.W. Bush (it) à alcunha de paladino da vendeta estadunidense. Obra de quem? Do Diabo, claro. Mas prosseguindo:

(Episódio Dois, ou “Queremos sertanejo!”): o furacão Katrina, que percorreu os EUA em 2005, ziguezagueou pelo Sul chauvinista, passou pela região petrolífera e carrasco do país e foi assolar justo quem? Os moradores de New Orleans, berço do Jazz e do Blues, capital da cultura negra do país e, logicamente, uma região menos abastada da nação (além de fazer o X Burger mais barato do país, dizem as revistas especializadas), levando a uma catástrofe de proporções dantescas. Recapitulando: o Katrina ‘driblou’ as regiões mais conservadoras e racistas dos EUA, onde se usa o milho como reco-reco, e foi aterrorizar justamente o enclave afro do país. Economizou os arianos e detonou a “negrada”. Obra de quem? Já sabemos.

(Episódio Três, ou “O homem que sabia javanês”): O Tsunami atingiu as paradisíacas praias da Indonésia, com muçulmanos torrando em suas túnicas em um sol de quarenta graus centígrados, arrebatando mais de 100 mil pessoas com sua fúria, o que não se verificou nas praias da Califórnia, Vale do Silício, Japão ou demais litorais melhor preparados para esse acidente (não afetando, infelizmente, a praia de Malibu e adjacências). Lambeu o litoral de uma das regiões mais belas e mais pobres do globo. Obra de quem? Do cão, como diria Virgulino, “O capitão”.

(Episódio Quatro, ou “Adeus, Al Gore”): essa é demais... O aquecimento global, que aparentemente levará todo o globo igualmente a sofrer com a elevação da temperatura (fazendo com que, pela primeira vez na história, pingüins deixem de receber dos governos da Islândia e da Dinamarca o seu quinhão na seguridade social dos respectivos países), também tem o dedo do tinhoso: o aquecimento levará as regiões temperadas do norte (leia-se EUA e Europa) a temperaturas mais elevadas, contribuindo assim com sua maior capacidade de produção de gêneros tropicais em sua cadeia agrícola, principalmente de alimentos, levando à redução de sua dependência de exportação de gêneros de primeira necessidade e, aliado à tecnologia de ponta, proporcionando diversidade em sua produção agroindustrial, além de continuarem produzindo vinhos melhores que os argentinos. Em contrapartida, as regiões subtropicais do sul (leia-se África e Sul América – Argentina inclusa -) deverão constatar elevação da temperatura a níveis insuportáveis e degeneração de suas floretas tropicais, evoluindo para um quadro de desertificação e de calor insuportáveis em longo prazo, como alegou o subsecretário de obras da cidade do Rio de Janeiro em fevereiro passado: “Não haverá verbas disponíveis para a ampliação do Pscinão de Ramos”. Obra de quem? Pode um troço desses?!

(Episódio Cinco, ou “Foi Santos Dumont quem inventou o avião!”): esse é o demus brasillis: em outubro de 2006, um avião da empresa GOL com mais de 150 brasileiros colidiu no ar com um jatinho Legacy, com 06 estadunidenses nos céus do Mato Grosso. O que aconteceu? O jatinho do Tio Sam teve uma pequena avaria, que o permitiu continuar viagem enquanto o avião com os 150 brazucas CAIU DE BICO no meio da selva, não deixando um sobrevivente, além de desmatar ainda mais a nossa já tão dizimada flora (gerando um problema a mais para a então ministra do Meio Ambiente Marina Silva). Detalhe: a falha para que houvesse a colisão foi do jatinho Legacy. E então? É legal isso? Alguma dúvida de quem operou este milagre?

Ao interligar esses episódios (repetindo: enquanto descascava meus milhos tranquilamente), fica nítida a interferência do Demo para que essas catástrofes viessem a aterrorizar os representantes que vivem abaixo da cidade de Paris, Texas (Deus salve Win Wenders!). Ou simplificando: mesmo em eventos aparentemente aleatórios, quem está por baixo se dá mal, como mestre Gonzaguinha brilhantemente aduz: “pobre não tem mesmo vez, não dá sorte ou dá azar”. E nisso tem, é claro, é lógico, é inegável, salve-salve, o dedo do Diabo. Portanto, ele existe e, se ‘ele’ existe, “Ele” também há: Deus existe. Ou não?
Podemos confabular o seguinte, revisando os episódios: 1 ) No ‘atentado’ ao WTC, é muito pouco provável que os proprietários das empresas, os detentores das ações e também os presidentes e principals, estivessem no prédio, afinal de contas, quem estava lá estava a trabalho, ou matando trabalho. Eram o contingente executor, formado por brilhantes engenheiros indianos, hábeis faxineiros mexicanos e alguns titulados latino-americanos, além dos habituais chineses vendendo yakissobas nas calçadas adjacentes. Logo, foram esses os vitimados: La vida és muy dura! 2 ) Com todo o aparato meteorológico-bélico-pentagonal-oxágonal-instrumental, não seria tão desconhecido o traçado do furacão Katrina (pois afinal, como sabiam o seu nome, hein? Hahã, peguei vocês!), assim como os procedimentos contingenciais do governo minimizariam a catástrofe humana, mas isso não aconteceu. Ficou claro o descaso do Estado, e do presidente texano para com os afro-descendentes abatidos pelo Katrina (talvez porque Bill Clinton toque saxofone, e Wynton Marsalis seja o diretor do Lincoln Center em NY), baixas talvez sem muita importância para as bandas cover do Willie Nelson. 3 ) A possibilidade de ocorrência de ondas do tipo Tsunami é monitorada por países como Japão e Austrália, mas somente nas imediações de seu território, protegendo origamis (que possuem uma natural capacidade de alçar vôo) e ovelhas. Assim, não se pôde prever a catástrofe que abateu sobre a população da Indonésia, com seus surfistas de trens. Mas vale uma ressalva: as populações litorâneas, inebriadas pelo turismo e pelo canto da sereia dos Dólares e Euros, deixou de lado seus costumes seculares, pois não codificaram a linguagem dos animais que, minutos antes da chegada das ondas gigantes, rasparam el gatón (para usar uma expressão local, introduzida por um colonizador espanhol já no séc. XVI). Ainda, as fotos demoraram a chegar à internet, devido ao fato de que as máquinas fotográficas dos turistas estarem com os cartuchos cheios de fotos de surf e nativos sorrindo, tendo que ser deletadas primeiramente. 4 ) O aquecimento global pode ser contido para evitar o aumento da discrepância entre norte e sul mas, com um indicador como o da prosperidade agrícola do norte, os EUA, maior emissor de gases que destroem a camada de ozônio, continuam a desrespeitar o Protocolo da ilusória cidade de Kyoto (pois não existe tal lugar nas agências de turismo). Mas eles podem: afinal, império é império, ou alguém pergunta às formigas se podemos pisoteá-las, a não ser biólogos com bolsa de estudos da FAPESP especializados em tal inseto?
Dessa forma, desdigo o que propus acima e, em nova conclusão, concluo por assim ser que o diabo não existe, e se ‘ele’ não existe, ‘Ele’ não há!
Ah! Ia me esquecendo... O episódio do jatinho Legacy e do avião da Gol: Não teve a pachorra nem de cair numa plantação de soja transgênica... Em se tratando do Brasil, isso sim é obra do Demo! E fui cuidar do meu milho... Também vivo num rancho, ora pois!

Caio e Franco Chiariello.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Sem título (que eu saiba)...

(Poema que o meu amigo Jeff "cabeção" Anderson teve a audácia de me mandar, e eu tenho a pachorra de postar. Abraços...)


"Leia o texto abaixo e depois leia de baixo para cima"

Não te amo mais.
Estarei mentindo dizendo que
Ainda te quero como sempre quis.
Tenho certeza que
Nada foi em vão.
Sinto dentro de mim que
Você não significa nada.
Não poderia dizer jamais que
Alimento um grande amor.
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci!
E jamais usarei a frase
EU TE AMO!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade
É tarde demais...
(Clarice Lispector)

domingo, 25 de maio de 2008

Poema do Domingos de Oliveira.

(Este poema "sem nome" que posto aqui está num filme do Domingos de Oliveira que, até estes 25 anos da minha curta e fanfarrônica vida, devo ter assistido umas também 25 vezes (sério). O filme se chama 'Separações", deste que alguns chaman de "o Woody Allen brasileiro"; acho uma relativa besteira esta colocação, mas se por uma fatalidade desta coisa sem pé nem cabeça que os butistas chamam de "destino" for correta, creio ser mais conveniente chamar o Woody Allen de "o Domingos de Oliveira deles", pois ele começou a fazer o "tipo" de cinema que faz alguns anos antes que o também mestre de Manhattan, ok? Um abraço para os dois gênios: o do Baixo Leblon e o do Brooklyn. E pras agora reduzidas cinco almas que passam por aqui também... menor, mas também.
Agora eu sei que te amo, de fato.
Mais que minhas rimas ou primas,
Ou outras que vieram depois.
Pois porque eu sou porque sois,
Além da lua, além dos sóis que vimos juntos,
Ou quaisquer outros assuntos, agora eu sei.
Eu vos amo mais do que temo a morte.
Eu reconheço a fonte dos nossos problemas:
É que antes, e cedo,
Eu fiquei com medo de te escrever
Poemas.
Domingos de Oliveira.

domingo, 18 de maio de 2008

Poema para um poeta pálido.

(Bobagem tamanha que tenho a pachorra de publicar aqui, ante as tais seis retinas que vez ou outra bobeam por estas bandas...é em homenagem ao amigo Diogo Parra (vulgo "Renatinho"), que está no blog indicado na lista dos meus blogs camaradas, etc. e tal... Abraços...)

Poema para um poeta branco.

Amigo poeta:
Dia destes, lendo seus garranchos
Enevoados de vinho e noite,
Reparei um troço, por sinal
Mui elegante:
Adoras o sol!
É, adoras sim, e por sinal
(e no entanto, não faz mal)
És branco, quiçá mais até
Do que o próprio sal!
Gostas do sol, mas é branco
Como a lua que te faz tão mal!
Como pode?
Qual será o mistério?
Serão as tais jurisprudências da vida
Que te faz ficarem horas e mais horas
(certo estás que por muito tempo não pretendes)
Nos corredores do Fórum João Mendes?
Ou aquele encanto distante que temos
(e pretendemos)
Manter justamente com aquilo
Que nos faz comer as nossas almas e mentes?
Se te afastas por muito tempo,
A inspiração necessária se esvai pelos dedos
Que automaticamente se tornam dormentes
De tanto desatino que dá a distância por si
Só.
Se te aproximas, corre o risco de ter o tédio
A te comer pelas bordas, pelo meio
E por tudo o mais que, desde os gregos,
Temos o bom hábito de chamar de
Vida.
Que fazes, afinal, pálido amigo:
Decifra-te ou te devoras?

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Scarlet.

(Para as seis almas que vez ou outra pintam por aqui, aí vai um poema do velho e bom Bukowski, só pra lembrar de coisas essenciais da vida humana - sem colocar Lair Ribeiro no meio, naturalmente -)

Scarlet.

fico feliz quando elas chegam
e feliz quando se vão

feliz quando escuto os saltos
se aproximando de minha porta
feliz quando esses saltos
se afastam

feliz por foder
feliz por me importar
feliz quando tudo termina

e
desde que as coisas ou estão
começando ou terminando
fico feliz
a maior parte do tempo

e os gatos caminham pra cima e pra baixo
e a terra gira em torno do sol
e o telefone toca:

"é a Scarlet".
"quem?"
"Scarlet."
"certo, pinta aí."

e desligo pensando
talvez seja isso
entro
dou uma cagada rápida
me barbeio
me banho

me visto

ponho o lixo
e as caixas cheias de garrafas vazias
pra fora

me sento ao som dos
saltos se aproximando
parecendo mais a aproximação de um exército
do que o som da vitória

É Scarlet
e na minha cozinha a torneira
continua pingando
precisando de concerto.

cuidarei disso mais
tarde.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Lixo.

(Poema besta para alegrar (?!) esta tarde de segunda. Abraços...)
Lixo.

Dedos no teclado
Para escrever um poema da alma,
Dos dias cinzas e das nuvens
Claras que andam me aparecendo.
Toca a campainha.
Eu, concentrado e irritado,
Fumando como um desvairado,
Abro: é um lixeiro.
Não um lixeiro qualquer, mas
O responsável por apanhar com os dedos todos
Os restos e sobras que passaram pela minha vida.
Quiçá, até mais que a própria poesia.
- Caixinha de natal!
Sorri, ele sorriu, e
Saquei dois reais do meu bolso,
Mais duas aristocráticas cigarrilhas de regalo
Para ele.
Tem mais: disse-lhe que fumasse
Apreciando cada tragada, ainda que correndo,
Pedindo caixinhas e pegando os lixos alheios.
Agradeceu-me sorrindo, com seus dentes
Tortos.
Dei-me conta de que a poesia
Está tanto na alma quanto no lixo.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Lou Reed na Calixto.

( Mais uma crônica da série "Crônicas beneditinas", esta em homenagem ao mundo da música pop. Ofereço ela à Carlinhos, que tem o bom hábito de matar as horas do seu trabalho lendo coisas inúteis - como tudo aquilo que o homem cria - na internet, para desbaratear sua chefa)

Lou Reed na Calixto.



Do meu lado trabalha um camarada chamado Gil, Gildário. Vende cd`s piratas, gravados, genéricos, depende de quem está falando. Enfim, vende cd`s também, em MP3. Muita coisa fina, desde Jacob do bandolim até jazz, coisas assim. Mas têm um ou outro Linkin Park, essas coisas também. Pouco, mas tem. Fala o dia todo, pelos cotovelos. Quando toma umas e outras então, puta que pariu. Ninguém agüenta. Mas é gente fina, um cara legal. Anda um pouco tristonho, terminou um casamento de uns sete, oito anos. Quando alguém pede algo como “Rebelde”, “Amado Batista”, diz sempre que não trabalha com droga pesada, que seu negócio é no máximo um baseadinho. Geralmente nêgo não entende, sai andando. Fuma maconha o dia inteiro, no duro. Não sei como consegue se manter em pé. Qualquer dia a sua cabeça vai explodir, virar fumaça, de tanto fumo acumulado.
Dia desses me aparece na banca dele o Otto, cantor, ex-percussionista do grande e salve-salve Mundo Livre S/A. Não gosto muito dele não, acho suas letras fracas e um pouco porra-louca demais para meus ouvidos. Uma espécie de quase Lou Reed brasileiro, só que casado com a delícia da Alessandra Negrini, o que denota uma característica de que a mulher o salvou dos arcabouços do inferno, ou algo assim. Muito “style” para mim. Pois bem. Aparece na banca do Gil e começa a olhar os cd`s, fuça na caixa, olhando, olhando. De repente, encontra um cd com seus discos, todos os seus poucos e fracos álbuns, compactados em MP3. Olha perplexo, se vira para Gil e diz:
- Rapaz, você está vendendo meus discos aqui, bicho. Não pode não, pô! Ce tá pirateando meu trabalho, cara. Não pode não, pô!
No que Gil vira pro camarada e diz:
- Porra, meu irmão! Qual é? As pessoas vão conhecer sua música e ir aos seus shows, e isso não é bom não? É bom para você sim, cara! Pensa nisso. Bom para mim e bom para você também, bicho!
Mas a figura parecia resolvida a aporrinhar a vida do meu colega de ofício:
- Mas fui eu quem compôs as músicas, quem gravei todas elas. Você não pode ganhar dinheiro em cima do meu trabalho não, bicho! Não é justo, cara!
Gil olhou para mim, já devia estar um pouco com o ovo virado daquele papo todo, e disse para o Lou Reed brasileiro:
- Quer saber de uma coisa? Pode levar essa merda embora pra sua casa. Ninguém compra mesmo, entendeu? Ninguém gosta da sua música, nem eu e nem ninguém, tá entendendo? Olha só, ainda mais do lado da discografia completa do Miles Davis, olha isso! Um horror, uma verdadeira afronta! Vai, leva essa merda e não volta mais aqui não, amigo! Nem eu e nem ninguém gosta desse lixo que você faz!
O cara ficou atônito, enquanto Gil pegava o cd e tentava entregar para nosso amigo. Ele virou e disse um “não é assim não, rapaz”, e Gil retrucou decidido que não tinha outro jeito, que era melhor para o ouvido das pessoas e para o bolso de ambos. O cara se virou e foi embora, sem saber o que fazer. Rimos o dia inteiro, feito loucos, enquanto nosso astro pop devia estar concedendo alguma entrevista para alguma revista cult da vida, dizendo sobre o processo de criação de suas canções, de como seu casamento era perfeito, etc. Um verdadeiro Ottar.. Assoviando “Tchu, tchurup, tchup-tchup-tchup-tchurup-tchup, tchurup, tchup-tchup-tchup-tchurup-tchuuuuuuup”.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Adoro Cartola!

(Poema muito carinhoso - embora não pareça - a respeito do samba, que espero que se explique por si só. Abraço a todos)

Adoro Cartola!
Quando piso em folhas secas...
Quando piso em folhas secas...
Quando piso em folhas secas,
Nada me vêm à cabeça.
Nunca fui à Mangueira, nem sou do Estácio.
Adeus Noel, adeus poema:
Vila mesmo, só a Madalena.
Nunca fui ao morro, nem pra fazer samba
Nem pra cheirar as flores dos
Seus vastos e regados jardins.
Pro Bixiga ninguém vai:
Nem ao amanhecer, nem antes do pôr-do-sol.
"Olha lá, a velhinha que canta samba!",
Dizem.
Qual a diferença entre velhos
E jovens: será o timbre da voz?
Serão aqueles tão "coitadinhos" que
Mereçam serem tratados como tal?
Ícones por conta da rigidez do tempo?
Queria mesmo é ouvir aquele samba
Composto na semana passada:
Cadê?
"Ah, gente: eu adoro Cartola...
E samba, ah... eu A-DO-RO samba!"
Então é assim: nada de Fred 04,
Kid Morengueira ninguém canta,
Caetano é um reacionário,
Chico "entende" a alma feminina
Como nenhum outro e...
Nelson Cavaquinho parece um vovozinho fofo.
Chega disso:
Use seu liquificador, plugue seu overdrive!
Pense dance pense,
Pense e dance!
Meu tempo é quando,
Mas meu mundo
É hoje!

segunda-feira, 3 de março de 2008

Seco.

(Texto feito no calor da hora, meses atrás... Não estou bem certo se o formato, a textura e o conteúdo dele me soam bem hoje; na verdade, foi o único texto que não revisei até hoje. Um tapa na minha própria cara, pois naquele dia...)




... saí de casa, e o giro da chave me pareceu como um barulho de areia sendo jogada em cima do meu próprio caixão, na minha própria vala, mesmo sem nunca ter ouvido tal barulho. Uma ave, que não sei o nome, voa fazendo alvoroço às três da manhã, em frente da minha casa, na rua. Nunca me interessei muito por aves, nem por animal nenhum. É poético, etc. e tal, muitos estão em extinção, mas simplesmente não consigo ou nunca quis dar atenção para isso. São-me indiferentes, e só. Por indiferença estou indo embora, talvez para sempre. Não, é para sempre mesmo. Venta na rua, e minha camisa xadrez é pequena e velha demais para o vento que esmaga meu corpo, como se isso fosse justo. Não sou culpado, isso não existe. Tento abolir isso do meu vocabulário a cada dia, numa verdadeira cruzada lingüística. Medo sim, isso sempre tive. Fui criado numa família de classe média, a tal da culpa não é minha. Às vezes me borro todo. Aliás, dia desses estava caminhando de madrugada no meu bairro, e uma turma passou por mim, gritando e bebendo qualquer coisa barata num copo de plástico vagabundo, uivando um hino de imbecilidade e possível violência. Esse tipo de gente é que sai aos domingos em turba, com mais uns vinte ou trinta idiotas uniformizados, espancando qualquer um que esteja vestido com uma camiseta do time rival. Penso que se eu tivesse sido criado na pobreza, ou na mais extrema riqueza, estaria mais propenso a agir violentamente. Por que não tenho coragem de, por exemplo, sacar uma arma e mandar todos se ajoelhar e darem beijos um na boca do outro? Seria anárquico, divertido, justo e arrebatador. Fazer sentirem-se uns bostas, isso sim seria bacana, bem bacana. Caminho. Minhas pernas vão lentamente seguindo o ritmo descompassado do meu braço, que nas últimas quatro horas levou mais de três maços de cigarro à boca. O casamento não deveria existir, deveria ser abolido e publicado no Diário Oficial o seu fim. Justo. Isso não é radicalismo, é pragmatismo. Todo mundo é pragmático, por que eu também não posso ser? Também quero. Sigo pela rua escura, propícia aos sentimentos existentes, tudo no seu devido lugar. Meu signo é touro, e eu também deveria ser um, não fosse o ascendente em gêmeos para jogar a minha cabeça pra lua. Ela sempre me lembrava disso. Acho que ela realmente dava importância pra isso. As mulheres são todas muito pragmáticas, todas. Na teoria, estou condenado ao fracasso, devo me preparar para isso. Com a cabeça na lua o sujeito se perde. Tenho que manter a guarda, manter a cabeça acima da água. O mundo pode me atropelar a qualquer momento, querer botar no meu rabo a qualquer hora. Não tenho as costas quentes, tenho que me acostumar a esperar pelo pior, sempre. Já vi nego se chafurdando na merda por causa de mulher. Não, foi por causa do amor. Do sentimento do amor, quero dizer. Da dor. Muita dor, e o sujeito acaba escorregando e caindo ladeira abaixo. Aí não tem mais volta. Aliás, nenhum caminho tem. Faz uns meses que não paro pra ver um filme, ando comendo pouco e bebendo muito vinho, todas as noites praticamente. E escrevendo, escrevendo. E olhando a janela. E fumando que nem um dragão. E lendo Rubem Fonseca. O trabalho eu faço, preciso do dinheiro, gosto de ter dinheiro. Não sou burguês, mas me acostumei a ser. Ontem passei por um violinista na Paulista, estava frio e ele lá, tocando na rua. Era um tema do Mozart, eu acho. Não tenho muita certeza. Lindo. Sua garota estava do lado, olhando pra ele, olhando pra mim, olhando pra rua. Lindos olhos, os dela. Dei dez reais para eles. Quando pus o dinheiro na caixa aberta do instrumento, ela olhou fundo nos meus olhos, como se tivesse entendido algo. Não sei o que, mas gostaria de saber. Raramente ouço música, e ultimamente só ouço as notícias do rádio. Ando um pouco obsessivo, mas não sei bem pelo quê. E ficando obsessivo, a minha libido cai. Anda bastante baixa. Sexo mesmo, muito pouco ultimamente. Minha última trepada deve ter sido uns dois meses atrás. Não sinto nada, de vez em quando acordo no meio da noite com o pau duro, começo a alisar, e dois minutos depois gozo um jorro branco e colante. Nos últimos dois meses estou indo quase todas as noites pra uma praça muito bonita e deserta. Vejo o céu escuro, as estrelas quando dá e um pouco de ar puro. Todos dizem que o ar de São Paulo é poluído, mas não sabem respirar direito. Faltam-lhes narizes. É isso, e é irreversível. Quando volto, caminho olhando pro chão, procurando alguma lata de cerveja pra chutar. Virou um vício, um hábito. Ela me disse que quando me prendo aos hábitos, é porque quero enlouquecer. Diz que na verdade já enlouqueci. Não sabe de porra nenhuma, ela. É o contrário. Foda-se, não me importo mais. Fico louco é com os jovens, parece que desaprenderam a falar, só murmuram. Este mundo está indo pras picas, ninguém se dá conta. As latas, ela, os jovens. Uma mistura bombástica para o meu fígado. Chuto a lata mesmo, e um dia vou ter coragem de chutar pombos, daí é que vai ser divertido. “Vastas emoções e pensamentos imperfeitos”. Esta frase não me sai da cabeça, o Fonseca é um filho da puta, me come a alma. Acho que já escrevi isto umas dez vezes, fico me repetindo. Tudo se repete, no fim. Não quero fazer a diferença, quero entrar no coral das massas. Isso, fazer parte de um coro uníssono. É disso que eu preciso, vai ver. Tudo igual, afinal de contas. Venta muito, sinto nos olhos, vai chover e estou sem guarda-chuvas, não quero andar de carro e vou indo, indo, e escutando um zumbido dentro da minha cabeça: “Vastas emoções e pensamentos imperfeitos. Vastas emoções e pensamentos imperfeitos”. Seco.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Os santos.

Os santos.

Foi numa mesa de um destes mil botequins que a história que contarei me foi narrada. Mais uma destas histórias de guerra que estamos acostumados a ouvir, mas que é sempre bom relembrar. Ou “renarrar”, tanto faz. Tentarei ser o mais fiel possível àquilo que meus ouvidos conseguiram captar depois de três doses duplas de whiskie 8 anos. “Bendita birita”; vamos ver se consigo. É a história de vida do avô de um professor meu. Lá vai:
Brasil, época da Primeira Guerra Mundial. A “Grande Guerra”. 1915, mais precisamente. Um jovem anarquista, filho de imigrantes italianos, tinha o curioso ofício de fogueteiro, ou seja, preparar fogos de artifício para datas festivas, etc. Muito bem: o que um anarquista fogueteiro, no início do século XX, poderia fazer com a arte que sabia dominar? Explodir coisas, óbvio. Eis que o tal camarada me explode um bonde no centro de São Paulo, ferindo várias pessoas, tendo que logo em seguida sair fugido do país. Para tanto, teve que se alistar no exército italiano, daqui mesmo, e partir para além mar. Era a única maneira de sair ileso do que havia feito. Imagine só: um anarquista tendo que servir o exército para salvar a própria pele. No mínimo curioso... Enfim, lá foi ele.
(Ah, antes que eu me esqueça - maldita birita!- : Por ser anarquista, e de quebra ateu inveterado, tinha o revoltoso hábito de quebrar os santos de porcelana da sua mãe, católica carola e fervorosa, que guardava todos os caquinhos dos santinhos destroçados pela ideologia do tresloucado filho - anarquistas de todo o mundo, uni-vos para quebrar estátuas!-).
Pois bem: a grande guerra foi “a guerra” de trincheiras, e nosso amigo ficou com a cabeça enfiada na lama por dois anos, em algum lugar no Vale do Pó. Entrincheirados, a vida desses homens que sobreviveram dentro de buracos por um motivo que, na maioria das vezes, lhes eram completamente alheios, era uma merda só, sendo impossível sabermos com precisão o que foi aquele tempo naquelas condições.
Seja como for, depois de ficar três dias sem dormir, bate-lhe um sono muito pesado, no exato momento em que as tropas inimigas estão avançando. Adormece, e enquanto as tropas avançam em direção à trincheira italiana, ele tem um sonho em que uma daquelas santas, cuja imagem havia quebrado, lhe aparece, dizendo para acordar e fugir o mais depressa possível, que sua vida dependia daquilo, imediatamente. No que ele abre os olhos, de fato avista o exército inimigo avançando, e de súbito se levanta e corre desesperadamente para salvar sua pele. Consegue, afinal, se salvar.
Terminada a guerra, regressa para o Brasil, “limpo” com a justiça brasileira, etc. e tal. Chegando em casa, a família o aguarda com festa, comida e bebida na mesa, essas coisas. Finda a celebração do reencontro, quando todos já tinham ido dormir, ele vai até o armário da sala. Procura, procura, até encontrar o que queria. Os sacos cujos cacos de todos aqueles santos estavam, separados pelos respectivos santinhos. Procura, procura, até encontrar aquela santa cuja vida lhe havia salvado na trincheira. Pega um tubo de cola, e começa imediatamente a colar os cacos e, como num mosaico, ele restitui-lhe o corpo, as vestes, a face precisa e exatamente igual à do seu sonho. Na verdade, colou todos os santinhos que havia quebrado outrora. Durante toda a sua vida, não houve uma noite sequer que não tenha tido pesadelos por conta dos seus anos na guerra.

domingo, 27 de janeiro de 2008

Vala comum.

(Ora pois... Posto mais uma daquelas bestiais crônicas do meu labor, enquanto caminho pelo Largo São Bento atrás de uma pá de boa qualidade para levar a cabo o projeto narrado nas linhas abaixo... Bom carnaval para todos.)

Vala comum.




Sentado aqui, como sempre, vendo o mundo, sempre o mesmo grande e eterno mundo passando pelos meus olhos. Desta vez sem ressaca, sem pessoas interessantes aparecendo, sem casos novos para narrar. Sem mediocridade e sem emoção. Nem ironia, nem poesia. Só sentado. Começo a divagar, pensando em alguns filmes, filmes A, filmes B, D E F G. De Niro naquela primeira cena do Touro Indomável, no ringue, belíssimo. Recordo-me de Mohamed Ali. Depois, a cena do astronauta em 2001, flutuando pelo corredor da espaçonave, indo rumo ao desconhecido.
Fico aqui, pirando, e me vêm à cabeça algumas personalidades do cinema que, por exemplo, poderiam facilmente ser enterradas naquilo que costuma se chamar de “vala comum”. É isso. Vamos lá, tecer uma lista, mas só do cinema, senão teria que escrever o maior obituário já feito na história da humanidade, maior até do que Auschwitz. Vejamos.
Por Exemplo, e encabeçando a lista, Kurt Russel. Esse poderia ser enterrado numa vala comum tranqüilamente. Ultimamente fico pensando nesse puto, nem sei por quê. Ah, já sei, por causa do Tango e Cash que narrei em outra crônica. Bem, continuando: Chuck Norris ia junto, sem dó nem piedade. Matou tanta gente em seus filmes que merece, VALA COMUM PARA ELE, MINHA GENTE! O Bruce Willis com aquele olharzinho de lado que cena sim cena também ele faz, isso em todos os seus filmes. Spielberg é outro, tanta grana e uma razoável inteligência, e só faz merda (e não me venham com essa de que Contatos Imediatos é um bom filme). Quem mais? Charles Bronson, Daniel Filho fácil, Schuaznegger, até o Zé do Caixão (só pra criar polêmica), Oliver Stone junto deles, pois também no me piacci. George Lucas, Sandra Bullock, o Shrek, o Mickey Mouse e a turma toda. O Wagner Moura também seria outro, se não tivesse feito tão bem o seu papel no filme Tropa de Elite. Dolph Lundgreen (acho que é assim que se escreve o nome desse canalha), Martin Sheen, seu pai, os três irmãos Baldwin, seus pais também. Pelé também fez filmes, ora bolas! Vai junto com a galera. Renato Aragão será incinerado, e suas cinzas irão virar adubo também, numa vala comum, óbvio. A Xuxa e todos os seus duendes cabem numa vala só, economizando espaço e trabalho para o coveiro. Até a filha, aquela que não cresce nunca vai junto, todo mundo, família feliz. Vamos lá, pensando... Ah, Bem Afflet e aquele outro que sempre faz filmes com ele, não me lembro o nome...O baixinho, sabem? Steven Segal, como não pensei nele antes, caralho! Eddie Murphie só não vai porque Um príncipe em Nova Yorque marcou época, senão ia já... Stallone e sua boquinha de coitado pedindo socorro também, óbvio... Aquela boquinha é a vergonha estadunidense, a vergonha nacional! Vamos lá, pensando... Ah, já basta! É isso. Qualquer dia desses acrescento mais nomes à lista... Vou fazer melhor: vou fazer uma enquete na minha banca, pondo uma lista dos verdadeiros canalhas da história do cinema que merecem ou mereceriam ser enterrados em tal condição. Conto o desenrolar dessa história numa próxima crônica. Continua...

Franco Chiariello, profissão: coveiro.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

THE UNENDING GIFT.

(Poema fantástico de Borges que tive o prazer de receber de um amigo, Ailton, e que tive um prazer ainda maior de recitar para um ouvido muito especial)

THE UNENDING GIFT

Um pintor prometeu-nos um quadro.
Agora, em New England, sei que morreu. Senti, como
outras vezes, a tristeza de compreender que somos como
um sonho. Pensei no homem e no quadro perdidos.
(Só os deuses podem prometer, porque são imortais.)
Pensei em um lugar prefixado que a tela não ocupará.
Pensei depois: se estivesse aí, seria com o tempo uma coisa
mais, uma coisa, uma das vaidades ou hábitos da
casa; agora é ilimitada, incessante, capaz de qualquer
forma e qualquer cor e a ninguém vinculada.
Existe de algum modo. Viverá e crescerá como uma
Música e estará comigo até o fim. Obrigado, Jorge Larco.
(Também os homens podem prometer, porque na promessa
Há algo imortal.)

Jorge Luis Borges.

Limite.

(Poema que ofereço à toda "canalhada", em especial à M., R., P. Com reverência, meus mestres!)
Limite.

Dias pro alto,
Dias pra baixo.
Hora sim hora também,
Testando o limite de meu
Sexo e do meu estômago.
Dizem que os canalhas têm gastrite:
Não só, a não ser
Que os canalhas também se
Apaixonem por cada instante;
A não ser que eles sejam poetas
Do sexo, do estômago.

Úlcera, gastrite, sangue e vinho.
Suor, tesão, pele quente e olhos nos olhos.
Cabelo molhado...
Sensações insuspeitas e romances inconclusos:
Phyticantropus erectus.
Aonde isso vai dar?
No limite, é na cama...
Ou no céu.
Deus meu...

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Obrigado, Tarkovsky.

(Esta crônica faaz parte de um "amontanhado" de escritos que ando tentando organizar com o pícaro nome "Crônicas beneditinas", coisas que se passaram e que se passam na feira onde ganho meu peixe, todos os sábados. Lá vai).



Mais uma tarde, mais um sábado. “Lá vou eu de novo, brasileiro nato, se não morro eu mato...”, como diz a canção. Sentado, lendo uns quadrinhos do Adão Iturrusgarai, a sua Aline. Divertido, muito bom. Sempre acompanho seus quadrinhos na Folha. Certa vez o Laerte fez uma charge em que conforme um cara ia chegando até onde possamos visualizar seus dentes no último quadro, ia dizendo o seguinte, em forma de protesto: “Sou contra esse negócio de nome de rua levar o nome das pessoas (quadro 1); Imagine uma rua com o nome (quadro 2); ADÃO ITURRUSGARAI !!! (quadro 3). Genial, essa leva de cartunistas desta geração. Fazem quadros dentro de quadros, sacaneiam seus colegas e comparsas de profissão, arte dentro da arte. Uns dão a esse tipo de experiência o nome “metalinguagem”. Acho isso uma idiotice tamanha, “metalinguagem”. O espanto da “pós-modernidade”. UI, que vontade de inovar, meu Deus! Todos atrás da Eureka contemporânea. Que deprimente.
Eis que chega alguém para atrapalhar minha leitura, meu divertimento. Eram duas, mãe e filha. Sotaque do interior. Conheço muito bem, pois também vim de lá, mais do velho oeste, onde aquele típico sotaque forte não tem muito uso. Olham, olham, e a mais nova diz “uau, que da hora!”. Diz que têm “só filme alternativo”, e na hora me vêm à cabeça as placas das “Saídas Alternativas” espalhadas ao longo da Marginal Tietê. Digo boa tarde, que fiquem a vontade, e se tiverem alguma dúvida a respeito dos filmes que me perguntem. A mãe diz:
- Quanto é que tá os filmes?
No que eu digo os habituais “doze reais qualquer um, exceto os duplos, que custam vinte”. Ela faz um chupado com a boca, uma espécie de “uhm”, com um gruindo semelhante a alguém que anda sentindo ataques repentinos de gases. Olha para a filha, a filha olha para ela, as duas parecem perplexas, e eu volto para os quadrinhos, pensando em escrever logo-logo alguma crônica sobre uma mulher com ataques de gazes na minha banca. Riu, pensando que será divertido. Elas fuçam nas caixas dos filmes, e a filha acha algo. Que milagre:
- Olha, Pulp Fiction. Nossa, não acredito que têm isso aqui! Moço, quanto é que tá os filmes?
Tal mãe, tal filha.
- Doze reais qualquer um, inclusive este. Tenho outros filmes do Tarantino também, se você gosta dele.
Falei isso para sacanear, óbvio. Não, sacanear não: divertir-me. É mais justo assim.
- Nossa moço, que caro!
Nessa hora, a mãe repetiu o “caro” da filha, olhando para ela como quem diz “vamos embora daqui agora, esse cara é um sacana filho da puta que quer arrancar nossas vísceras fora e jogar para os cães, assim, de graça”. Não pensei nisso, mas a cena me pareceu tarantiniana por excelência. Bacana. Mas a filha logo em seguida soltou essa:
- Não, não, mas não é assim...rola um desconto, sempre...em banquinha de camelô sempre rola desconto, toda vez. Não é, moço? Você não faz um desconto pra gente?
Quase explodi na risada, olhando o populacho classe média interiorana com seu senso de menosprezo pelo trabalho dos outros, qualquer um que esteja abaixo de si mesmo (não tenho ojeriza a quem é do interior ou de qualquer região específica do mundo, só para ficar claro). Pensei que era justo fazer o que ela queria. Ela merecia, era uma alma digníssima.
- Rola sim, claro. Na verdade, todos os camelôs de São Paulo possuem um código de ética, de conduta acerca dessa questão. Eu, como sou da classe, estou fazendo o seguinte: se a pessoa levar alguns filmes específicos da minha barraquinha, leva um outro de brinde, além do habitual desconto. É uma forma de fazer o comércio girar mais, de fazer com que a produção cinematográfica não pare de produzir mais filmes, para eu poder construir minha casa própria mais rapidamente, inclusive.
Elas olhavam para mim entretidas, concentradas mesmo, abanando levemente a cabeça, como quem diz “sim, nós estamos de acordo”, mesmo sem terem ouvido todo o meu discurso:
- Sendo assim, estou fazendo o seguinte: levando esse filme, te faço dez reais e vocês ainda ganham um filme do Tarkovski, já ouviram falar?
As duas abanaram a cabeça dizendo que não, que nunca tinham ouvido falar do tal sujeito.
- Pois então – prossegui -, é um cineasta russo considerado pelos especialistas um dos dez maiores diretores de cinema do mundo, junto com o Tarantino, diretor desse filme que está na sua mão, que também integra a lista.
Elas olharam surpresas para mim, disseram que eu era muito inteligente, e que iriam sim levar o filme. Sugeri Stalker do Tarkovski, e elas pagaram os dez reais, agradecendo muito minha gentileza, prometendo que iriam voltar mais vezes, sempre quando viessem para São Paulo. Pagaram e foram embora. Fico imaginando as duas assistindo Stalker, com planos de quinze minutos filmados sem corte, um filme de três horas e pouco sendo exibido na casa duma família de classe média idiotizada pelo ingrato mundo que nos rodeia. Com certeza depois de meia hora de filme iriam jogar o DVD de lado e nunca mais iriam tocar nele. Fiquei idealizando isso, enquanto ria, lendo novamente meus quadrinhos.

A tal da física.

Lição para se guardar durante a vida toda. Vou contar um causo que me aconteceu há vários anos atrás, quando ainda estava no primeiro colegial. Uma pequena crônica, só para matar o tédio.
Tinha por volta de uns quinze anos, e pela primeira vez teria aulas de física no colégio. Até a quarta série, sempre tirei ou nove ou dez em matemática. Depois as coisas degringolaram um pouco. Mas aquele meu primeiro contato com a física foi de deslumbre. Pareceu-me um novo mundo, pois meu professor, além de fumar que nem um louco em sala de aula (na verdade era sempre na porta), me apresentou a física como algo lindo, sublime. As contas e estratagemas eram fantásticos, e o que mais me maravilhava e ao mesmo tempo desafiava, era o fato de que os problemas sempre me pareciam impossíveis, mas quando resolvidos (por ele, obviamente) eram a coisa mais banal e simples do mundo, além de belos, sempre. Era como se todas as respostas sempre estiveram ali, bem diante dos meus olhos, mas por alguma moléstia ocular do meu pensamento eu não conseguia enxergá-los.
O problema foi que, se no começo aquilo tudo se apresentou como um desafio, depois transformou-se numa angústia, até o ponto de se tornar algo parecido com raiva. Raiva de mim, do professor, dos alunos que também não compreendiam nada daquilo que aquele homem tentava nos ensinar, e nem queriam de verdade. Fui sentindo que sua didática e o modo como nos tratava no começo do semestre foi se modificando, até o ponto de demonstrar, muitas vezes, certo desdém por nós. O problema não era o próprio ato em si do desdém ou desprezo. A questão era que merecíamos sermos tratados daquela forma. Isso era o que mais me angustiava. Não quero parecer fascista dizendo isso, mas honestamente: foi a mais pura e bruta verdade. Merecíamos aquilo por não nos desafiarmos, não nos permitirmos ir além de piadas sem graça e a vontade de jogar bola nos intervalos das aulas. Já éramos adolescentes, e se não conseguíssemos nos abrir para uma coisa tão fantástica daquelas, e tentar transcendermo-nos de um colégio público da periferia de uma cidade do interior, para o que mais nos abriríamos? Estávamos fadados ao fracasso, isso me parecia nítido.
Mas por mais que eu tenha me esforçado no começo, levei o resto do semestre bem nas coxas, até chegar na penúltima semana de aula. O professor nos avisou que a haveria uma prova final, a única do semestre, e que toda a matéria dada ao longo daqueles últimos quatro meses cairia na tal prova. Vi o céu desabar sobre mim. Devo ter pensado que estaria ferrado, e no mínimo reprovaria. Dediquei-me a estudar a tal da física o resto da semana toda, e creio que não foi só para passar. Lembrei de um episódio do seriado “Anos Incríveis” (quem de vocês se lembram?), em que Kevin Arnold estuda como um louco para não reprovar em álgebra, e teve uma relação parecida com a que tive com Marcão (esse era o nome do meu professor), e no fim do exame ele entrega a prova para seu professor dizendo que ele nem deveria se dar ao trabalho de corrigir, pois o que estava sendo entregue era um dez. “Vou fazer igual, esfregar na cara dele que eu posso sim entender daquilo, que posso entender qualquer coisa”, pensei. Vou fazer igual. Ralei, ralei muito, estudei tudo o que meu cérebro pôde absorver de física naquela semana.
Eis que chega segunda de manhã, e me pego sentado na carteira, olhando a minha frente seis questões que, para mim, não distinguiam em nada do mandarim ou do grego arcaico, lexicalmente dizendo. Ele disse que quem terminasse o exame deveria ficar sentado na carteira, e que a sala só seria liberada quando soasse o sinal. Todos sairiam juntos.
O resultado da minha prova foi ótimo: consegui responder só a primeira questão. Pela metade. Mas como em física não existem questões respondidas pela metade (não estou falando de física quântica, e na verdade nem entendo disso nem quero discorrer sobre a exatidão das ciências exatas; deixo isso para os sociólogos ou para os filósofos contemporâneos), não levaria nem meio. Zero: este seria meu sobrenome em se tratando de física, para o resto da vida. Me matei para levar a primeira questão até a metade, e o fato de não poder sair correndo daquela sala naquele caloroso fim de novembro me esmagou o cérebro. Levei uma hora e meia para chegar até a metade daquela maldita questão (as outras eu nem fazia idéia de como começar), e se não conseguiria fazer toda a prova, pelo menos aquela única questão eu faria inteira. Tentei levar adiante o meu meio/um sexto projeto, mas fracassei. Fellini filmou seu glorioso “Oito e meio”, e naquela manhã eu fiz o meu “Cinco e meio”, ainda que ao contrário e sem ser exibido em salas de cinema mundo a fora, sem genialidade alguma.
Bateu o sinal, e aqueles que não tinham entregado suas provas foram até a mesa do professor entregá-las. Pediu para que esperássemos um pouco antes de sairmos porta afora, o que fizemos. Ele se sentou, acendeu um cigarro, deu um trago profundo, e começou a dar uma olhada por cima dos papéis que certificavam o como nossa geração era por demais ignorante, burra mesmo. Olhou, olhou, e depois de uns três minutos de tensão, disse em alto e bom som:
- Praticamente todas as provas são iguais, com exceção de umas duas entre as quarenta que estão aqui na minha mesa. Lastimosas e erradas. Espero que algo de bom aconteça nas vidas de vocês, mas temo que isso não aconteça. Na verdade, tanto faz. Só queria que vocês soubessem que todos foram aprovados. Podem ficar com a cabeça tranqüila e ir embora para suas casas. Não precisam se preocupar mais. Bom final de ano.
Não consegui descolar a bunda da cadeira naquele momento. Na verdade, fiquei sentado até o último aluno ir embora, até ficar completamente só naquela sala de aula. Fiquei observando meus colegas de classe, os futuros homens e mulheres que dali a alguns anos seriam senhores de si mesmos, com seus trabalhos e filhos. Pensei naquele homem que tentou ensinar algo de diferente para nós, e não conseguimos ou não quisemos responder à altura. Fiquei possesso de raiva, puto da vida. Com a própria vida e com todo o resto que vem junto dela, e não deixei de pensar naquele fato durante uns bons meses. Na verdade, penso nisso até hoje. Penso às vezes sobre os possíveis rumos tomados por aqueles adolescentes, meus colegas e amigos de outros tempos, minha geração mesmo, que na época povoavam meu universo. Nas paredes da sala de aula, que descascavam a olhos nus. Nas janelas quebradas, no chão de cimento rachado pelo uso do tempo e dos garotos e garotas que passavam dias tediosos sem aprender absolutamente nada daquele mundo tão alheio às suas próprias vidas, numa escola pública no final do século vinte.
E me pego pensando também o que terá acontecido com aquele homem que, naquela manhã, me fez sentir como o mais frágil e ridículo dos homens, e que de alguma forma estranha me mostrou a imensidão de minha própria pequenez perante a maravilha que o mundo pode vir a ser. Mostrou-me o chão e, como diz o provérbio, “dele ninguém passa”. Quiçá, tal como na física.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

7 Tiros.

7 tiros.
Saí de casa correndo como um louco,
Atropelando mendigos tresloucadamente,
Como os tais elefantes e pássaros do
Subcontinente indiano quando do Tsunami
(Quem se lembra?!).
Mas me esqueci, meio que querendo esquecer,
Meus sapatos, meus charutos, e algumas
Economias depositadas no bolso d’um
Paletó no meu antigo (?) armário, pois
POR DINHEIRO AS PESSOAS SEMPRE VOLTAM.
Saí correndo como um Forrest Gump
Tolo e temeroso, chutando pombos e com
Um rifle chamado DESTINO
Apontado para o céu, atirando em várias direções:
Verdadeiras balas perdidas...
O primeiro projétil acertou uma antiga paquera
(JÁ NÃO ERA SEM TEMPO!);
Ela mereceu, eu mais ainda.
O segundo, em bares e garrafas de vinho
Espalhados pela cidade de São Paulo;
BALAS PELA NOITE PAULISTANA! ÊBA!
Já o terceiro tiro teve que ser mais
Pragmático: casa nova,
A bala mais necessária para um projétil
SEM PROJETO!
O quarto tiro acertou em quatro mulheres d’uma
Só vez, numa espécie de fila indiana:
Percebi que tinha uma boa arma em mãos, afinal.
O quinto tiro disparei no Rio de Janeiro:
Da sacada de um apartamento em Santa Tereza,
A tal bala rechicoteou na
Baía de Guanabara, pegou o Aterro em direção
À Copacabana com seus fogos de ano novo,
O Arpoador com seu mirante e
Ipanema com o seu TODOTOTALIMAGÉTICO.
Bala perfeita, essa...
O Rio ainda foi palco do meu sexto tiro:
Uma tigresa com um coração galinha de leão,
Fina flor da feminilidade carioca.
Já o sétimo tiro não foi bem com balas,
Mas na balada, até as 7 da manhã.
7 tiros e
Pá, pá, pá, pá, pá, pá, pá!
...
São oito horas da manhã, e penso que quando eu voltar
A minha mira para as coisas e os charutos
Que deixei pra trás, terei que ter um
Cartucho extra de balas ou,
Como Hemingway,
Dar um adeus às armas,
Ainda que temporariamente.
Atirar cansa.
Ou não.